ANJOS
VIRTUAIS
Episódio 01 - Gustavo
O jovem caminhava pela rua tentando
prestar atenção ao seu redor.
Quantas
e quantas vezes podemos passar pelo mesmo lugar, ver as mesmas pessoas e nem
prestar atenção? Acho que chega uma hora que nosso cérebro, incapaz de de
processar tudo o que vê e escuta durante todo o dia, começa a ignorar coisas
para não se sobrecarregar. E esse é nosso maior erro.
Vendo
as pessoas no ponto de ônibus Benny pensou no quanto as aparências
enganam. Quem eram realmente elas? Quem
poderia saber? Quem poderia dizer se aquela sorridente mocinha de cabelos
amarrados ou o garoto de cara fechada escondem alguma dor? Talvez uma dor tão
profunda que os fizesse sentir vontade de acabar com a própria vida?
E
olhando para ele, o que alguém diria? Pelo terno cheirando a novo e o cabelo
cortado num estilo meio rebelde sem causa, você provavelmente diria que ele é
um jovem executivo. Se olhasse mais perto e visse os tênis vermelhos, você
provavelmente diria que ele é um daqueles caras talentosos que fazem sites e
ganham mais dinheiro que um pais.
Mas
você estaria errado. Benny é um anjo.
Não
daquele tipo de que fala a bíblia. Com certeza não daquele tipo que aparece nos
filmes. Benny era de um tipo mais mundano, isso eu lhe garanto. Mas nem por
isso menos interessante.
Benny
era um anjo virtual.
Quando
se aproximou do prédio espelhado e cumprimentou o vigia pelo nome, Benny pensou
no quanto era sortudo. Tinha um emprego que pagava muito e podia fazer o que
quisesse da vida, sem depender dos pais. Para Benny, depender de alguém era o
mesmo que estar acorrentado. E ele não gostava daquela sensação. Gostava de
voar. Talvez algum dia, quando já tivesse grana bastante, ele talvez voasse
para longe dali.
Enquanto
atravessava o saguão rumo ao elevador, ele pensou no quanto aquele lugar de
aparência moderna parecia inocente. A aparência distinta escondia um grande
complexo, com um subsolo cheio de supercomputadores de última geração e
especialistas em campos da informática e da psicologia que Benny nem sonhava
que existia. Mas o mais surpreendente era a finalidade da coisa.
Toda essa gente se empenhava em um
conto de fadas. Uma utopia, se você quiser assim. E pensar que há apenas um mês
ele havia colocado os pés no escritório da senhorita Muniz.
Antes
de entrar, Benny ficou um tempinho na porta, espiando a sala e tentando
descobrir alguma coisa sobre sua dona. O lugar não era muito mobiliado. Nada de
arquivos ou decoração. Apenas uma mesa com um laptop e algumas cadeiras. Nada
de retratos com os filhos ou coisa do tipo, o que deixou Benny intrigado.
Mônica
era uma mulher de seus quarenta e poucos anos. Folheava nervosamente um jornal
impresso – outro anacronismo? – quando Calvin e pareceu não perceber que ele já
estava ali há quase três minutos. Apenas pareceu.
-
Não vai entrar, senhor Calvin – ela perguntou com sua voz rouca e um pouco
aveludada. Era o tipo de voz que se fazia ser ouvida sem precisar gritar. Por
um momento Calvin pensou a senhorita Muniz era o tipo de pessoa que conseguirir
fazer alguém sofrer muito sem erguer
a voz.
Calvin
não se moveu.
-
Eu sei quem é. Eu o selecionei pessoalmente, sabia?
Não vou tremer agora – Calvin pensou – gente como ela nunca respeita quem treme no
primeiro encontro.
-
Bom dia, senhorita Muniz – Calvin entrou e se deixou cair preguiçosamente em
uma cadeira em estilo antigo. Ela não se lhe estendeu a mão. Calvin não se
surpreendeu. Estava começando a entender o que ia enfrentar. Gente marrenta não
era nenhuma novidade na sua vida. A única novidade era o marrento usar
terninho.
-
Sr. Calvin, - Mônica perguntou - O
senhor por acaso tem ideia de quantas pessoas cometeram suicídio hoje, só nesta
cidade?
- Quinze. – Calvin respondeu sem pestanejar - Estamos
tendo uma semana agitada.
A senhorita Muniz permaneceu em
silêncio, olhando para ele.
- Eu pesquisei antes de vir pra cá –
ele teimou em acrescentar. Quem era aquela mulher, que o fazia se sentir um
menininho que foi apanhado roubando doce?
- Aposto que pesquisou nos lugares
errados. – Mônica deu uma pausa enquanto acendia um cigarro. Estavam no subsolo
e ela parecia uma chaminé ambulante. Provavelmente as leis de fumantes não se
aplicavam ali. Ou, provavelmente a senhorita Muniz não estava nem ai. - Para seu governo, estamos tendo uma semana
calma. – Ela acrescentou suavemente. - As pessoas parecem que ficam mais
otimistas depois das festas de fim-de-ano. E eu aposto que também andou fazendo
uma pesquisa de campo a meu respeito, não é verdade? E provavelmente descobriu
nela que chegar adiantado e vir de gravata vermelha ajudaria a causar boa
impressão. Eu sei até a quem perguntou... Você por acaso tem alguma idéia do
porque foi escolhido entre tantas pessoas?
Calvin se sentiu lido como se fosse
aquele jornal sanguinolento que ela segurava. Tudo o que ele conseguiu dizer
foi:
- Por causa do meu currículo?
- Não seu idiota. Foi porque seduziu
uma de nossas psicólogas no dia da sua entrevista.
Um flash passou pela mente de Calvin.
Ele e uma jovem loura linda. Nessas horas Calvin se admirava o quanto a vida
podia surpreender. Ele fora ali esperando conseguir um emprego e tinha
conseguido sexo selvagem na biblioteca.
- Como disse? – perguntou meio que por
perguntar. Para que ele não pensasse que ele era um cínico. Mas no fundo ele
sabia que ela não se deixaria convencer. Gente como a senhorita Muniz estava
acostumada a devorar gente como ele no café da manhã e Benny sabia disso.
- Temos muitas câmeras nesse prédio,
Sr. Calvin – ela disse, confirmando o que ele já sabia. – Mas isso não vem ao
caso. O que importa é que aquela garota linda e bem vestida foi colocada ali de
propósito. Ela ficou lá, dando mole, dando todos os sinais de que estava no cio
e nenhum dos idiotas se importou com ela, ou fingiu que não se importava. Apenas você aceitou correr o risco. Como você vai ver, sinais são coisas muito
importantes no nosso ramo. E saber quando quebrar o protocolo também. Na maioria
das vezes nós andamos na corda bamba e não podemos nos dar ao luxo de gastar
segundos preciosos pensando se devemos ou não fazer alguma coisa.
- A senhora fala como se eu fosse
praticar aplinismo e não conversar com gente depressiva o dia todo.
- Ah, só Deus sabe o quanto eu invejo
os alpinistas e suas vidinhas pacatas, Calvin.
Naquela noite, enquanto voltava para
casa de metrô, Calvin ficou repassando o restante da entrevista, principalmente
a resposta que recebeu quando perguntou, como tudo tinha começado.
- A história que você vai ouvir é uma
história batida, Calvin – ela começou, acendendo mais um de seus cigarros de
menta caros - Mas a causa não importa
tanto assim quanto você possa pensar. As causas são sempre as mesmas. As
consequências é que fazem a diferença.
“Como era de se imaginar, nos tornamos
"Anjos" por causa de um suicídio.
“Da esposa de um milionário – o Sr.
Charles.
“Ela tinha uma vida de princesa. Ou
pelo menos o Sr. Charles achava que dava a ela uma vida assim. Mas isso não
quer dizer grande coisa. Ela era querida e muito invejada. E nada feliz.
“Nos últimos tempos estava se tornando
cada vez mais triste. Entende o que falei sobre os sinais?
“O Sr. Charles achou que era apenas
tristeza, cansaço, sei lá. Ou a idade... Ou o peso de cuidar de uma família tão
numerosa. Como a maioria dos maridos, ele não entendeu os sinais.
Muniz deu uma estranha pausa enquanto
dava uma tragada longa e olhou para ele.
- Ela não deixou bilhete.
Aquela frase ficou martelando na
cabeça de Calvin por um longo tempo. Não foram as palavras. Provavelmente foi o
olhar.
- O senhor Charles percebeu seu erro
rápido – Mônica prosseguiu. - E decidiu, seja por causa de um altruísmo enorme
ou de um egoísmo maior ainda, que não permitiria que outros fossem tão idiotas
quanto ele.
“E , alguns anos e milhões depois,
estamos aqui. Os ANJOS VIRTUAIS.
“O nome é cafona, eu sei. Mas é bem
adequado, porque tentamos salvar pessoas o tempo todo. Mas acho que você já
sabe d isso. O que leva a me perguntar porque. Porque está aqui?
- Um conhecido meu trabalhou pra
vocês.
- Ah, sim, o Roberto. Eu me lembro
dele. Pena que ele se envolveu demais com o trabalho. É um risco que todos
corremos.
- Pois é. Ele me disse que o emprego
era estressante. Mas me contou quanto ganhava. E pra mim isso é que importa.
- Que bom que não me enganei. Eu
raramente me engano. É o que me torna ideal para estar aqui. Eu não ligo para
suas crenças pessoais, ou seja lá o que for, contanto que faça seu trabalho.
Venha, vamos conhecer sua nova sala.
Neste instante ela se levantou e se
dirigiu até a porta. Calvin a seguiu e pegou no seu braço. Ele sabia que
inevitavelmente iria dizer o que disse em algum momento. Era parte da sua
natureza. E sendo ela quem era ou não, ainda era mulher.
- Puxa, senhorita Muniz, quanta
amargura. Aposto que a gente poderia dissolver toda ela num jantar num lugar
bem elegante.
Ela retirou sua mão num gesto rápido,
porém preciso, como tudo o que fazia.
- E eu aposto que não seria mau
fazermos uma parada no andar da Psicologia, não acha? Aquela menina ainda está
esperando sua ligação...
Calvin nem teve tempo de se sentir
envergonhado. Sabia que no fundo, ela o havia adorado.
O primeiro caso de Calvin foi o
Gustavo.
Era um simpático garoto de dezesseis
anos com olhos amendoados. E nenhum problema de saúde, como Calvin podia
presumir pelo seu histórico médico.
Além disso, era dono de um excelente
gosto para mulher, como o agente pôde verificar pelos seus logs em redes
sociais.
O que Calvin realmente lastimou foi o
gosto musical do guri.
O que tornava Gustavo tão interessante
a ponto da I.A. dos Anjos terem-no pinçado do oceano de informações que era a
World Wide Web, era o seu comportamento nos últimos seis meses.
Uma rápida passada de olhos de um
psicólogo só confirmou o que o computador já sabia.
O primeiro sintoma era a quantidade de
tranqueiras que o garoto andava comprando. Será que estava tentando preencher
algum tipo de vazio?
Segundo sintoma: pelas faturas do
cartão de crédito dele, dava pra ver que o moleque andava se entupindo de
fast-food. Seria aquilo sintoma de ansiedade?
Será que o velho dele tinha tanto
dinheiro que um rombo daqueles passaria batido?
Sim, ele tinha. E isso complicava um
bocado as coisas.
O terceiro sintoma, na opnião de
Calvin era que, segundo os hackers de plantão, o consumo de pornografia havia
diminuído a quase zero, o que não era nada comum na idade dele.
Se tivesse algum amigo íntimo ou uma
namorada a quem contar, Calvin teria se esbaldado contando sobre o quanto
realmente gostava naquela coisa de ser um anjo. Não havia limite para o que ele
pudesse fazer. Havia juízes para
conseguir mandatos e até gente do governo trabalhando com a organização em
situações espinhosas. Contas bancárias? Documentos sigilosos? Aquilo era
brincadeira de criança para eles.
Calvin pensou em tentar descobrir como
andavam se virando os pais, mas resolveu deixar pra lá. Não queria perguntas.
Enquanto olhava o boletim de Gustavo,
ele se pegou pensando que poderia ter tido pais piores. Como por exemplo, os
pais do menino. Que espécie de pessoa não via que havia algo errado? As notas
dele sempre foram boas, mas no último trimestre, haviam despencado....
E olhando para a foto deles
sorridentes, ao lado do filho, qualquer jurariam que eram uma família próspera
e feliz.
“Quem vê cara não vê depressão – era o
que a mãe de Calvin costumava dizer.
Quando
recebeu sua nova sala, Calvin também recebeu uma embalagem com vários DVDs,
onde estava escrito “VÍDEOS DE TREINAMENTO”. Pelo visto a senhorita Muniz
também sabia do quanto ele antipatizava com salas de aula e educação formal em
geral.
Calvin
pegou o primeiro deles, onde estava escrito 0001 e o colocou no computador.
A
voz da senhorita Muniz encheu a sala.
- Muitos se perguntam para que servem
os Anjos Virtuais. Se somos tipo um Disque Suicídio ou algo assim. Eu digo que
nós somos melhores.
Ele tinha que admitir, apesar da falta
de modéstia, ela era irresistível.
- Para que o disque suicídio funcione,
a pessoa que quer se matar deve estar consciente disso – continuava ela.
“Também precisa estar disposta a
conversar com um estranho, coisa que muitos não estão.
“Nós vamos um passo além. Através de
uma combinação do que há de mais modernos em tecnologia, podemos varrer a web
em altíssima velocidade e identificar potenciais suicidas.
Calvin desligou o vídeo. Estava
cansado de tanta falação. Pra ele o que contava era a ação. E para isso era preciso entrar em contato com
os suicidas. Um bom lugar para começar eram chats e páginas de relacionamento.
Nos últimos tempos, a web borbulhava
com comentários sobre um certo site chamado almassolitárias.com. Claro que tudo
aquilo não passava de burburinho virtual lançado por gente de Muniz em páginas,
baladas e os lugares mais improváveis possível. Na opinião de Calvin aquele era
o melhor tipo de maketing, o que você nem percebia que estava comprando um
produto.
E pelo jeito o pessoal da idade do
Gustavo andava comprando um bocado, já que ele não saia do “almas”.
À meia noite e meia LostBoy17 logou religiosamente no site
como fazia quase todos os dias. Ele foi seguido por Anjo27.
Calvin
estava no seu escritório adormecido quando ouviu o barulhinho de uma campainha
de telefone antigo saindo do computador. Eram quase duas da manhã e ele soltou
um longo bocejo.
-
Ei, - Gustavo perguntava na tela – você está ai?
Qual
era o problema com os garotos de hoje em dia? Será que ninguém mais sabia
aproveitar uma madrugada de sábado?
A
senhorita Muniz tinha razão quando dissera que a vida social de Calvin tinha
evaporado no minuto em que ele assinara o contrato de trabalho. Benyy tinha
esperanças de que aquilo fosse apenas um gracejo.
-
Como vai garoto? – perguntou, tentando disfarçar o mau-humor.
- Tudo beleza. E com você?
Na primeira vez em que conversaram, ele achou que Calvin era um
tarado. Agora era seu amigo do peito, o que queria dizer que Engenharia Social
não estava tão fora de moda assim.
-
Vou sobreviver a este emprego medíocre – Calvin falou, bebericando um pouco de
café frio. No que dizia respeito a Gustavo ele era um help desk de uma
operadora de TV a cabo – contanto que ninguém me pergunte porque não consegue
assistir aos canais pornôs.
Gustavo
riu. Aquilo fez Calvin se sentir bem.
-
Lembre-se do que Nietzche dizia – Gustavo disse – o que não te mata te
fortalece.
O
que um pirralho daquele podia saber sobre Nietzche. Provavelmente havia pegando
aquilo em algum site.
- E ai? Ouviu as músicas que te
mandei?
- Claro. Música da melhor qualidade.
O pobre achava que Calvin era, tipo,
uma alma gêmea, que gostava da mesma música ruim. O duro era que as músicas que
ele ouvia alternavam entre a depressão e necessidade de quebrar coisas. Não era
a toa que ele está querendo se matar, depois de ouvir aquilo tudo...
-
Eu sabia que você ia curtir o Burt.
Claro,
ele era otimo... Quando não estava
grunindo ou incitando os ouvintes a metralhar os pais.....
-
E ai? Já arrumou alguém pra sair hoje? – Calvin perguntou a queima-roupa.
-
Escuta aqui – Gustavo falou, olhando fixamente para câmera e Calvin imaginou
como um Burt deveria se parecer – eu por acaso tenho cara de quem precisa de
alguém? Tenha dó... Já ouviu falar de autonomia? De auto-suficiência? Além do
mais, não tou a fim de dançar a Dança do Acasalamento essa semana.
Na
idade dele, Calvin dançava um bocado.
- Fala sério. Você é gay?
Explicaria muita coisa.
- Não. Só não tou a fim.
- Essa é velha.
Ele devia tremer todo quando está
perto de uma menina...
Calvin não disse nada. Apenas colocou
a mão sobre o queixo e fica olhando para computador, como quem tentava
desvendar um mistério. Como era de se esperar, a confissão veio logo em
seguida.
- Tá certo, eu admito. Sou péssimo com
mulher.
- Esquenta não garoto. Aos dezessete
anos quem não tem?
O Benny Calvin de dezessete anos nunca
tivera. Mas contar isso pro garoto provavelmente ia quebrar o encanto.
Duas semanas depois, lá estavam eles,
em frente ao computador.
- Nossa, porque esse mal humor todo? –
Calvin perguntou.
- Se você tivesse a vida horrível que
eu tenho, saberia – o garoto respondeu. Ao fundo Calvin podia ver um baixo com
um boné pendurado e alguns pôsteres do Burt.
-
Ah, tenha dó! Você tem pai e mãe. Tem dinheiro e é saudável. Está sempre
cercado de gente bonita e não se parece com aquela criatura daquele lago
escocês. A maior parte das pessoas desse planeta daria qualquer coisa pra ter
vida que você tem.
- Puxa, é mesmo? Puxa que vida maravilhosa
que eu tenho... Olha pra mim... eu pareço feliz? Pareço estar saltitando e cantando
de felicidade? Não... porque se eu estivesse, era para agradar alguém. Eu não
passo de uma casca vazia. Um fantoche. Só sei fazer o que meus pais querem. Vou
às festas que eles escolhem, sou amigo de quem eles escolhem.
"Role e finja de morto, Gustavo...
Agora pule!". Essa é a minha vida.. Mas eu não tou nessa sozinho. No fim
das contas, somos todos fantoches, Benny.
- Eu entendo tudo o que você quer dizer.
Se você vê onde estão as cordas, porque não as arrebenta?
- Essa, Benny, é a pergunta.
Mas no fundo Calvin também entendia.
Se dependesse dos seus pais, ele também estaria rolando e fingindo de morto.
Mas chegou uma hora em que ele conseguiu romper as cordas. Será que Gustavo
também conseguiria?
Benny torcia pra que sim.
- E então, como estamos indo com o
pequeno psicopata? – Era a senhorita Muniz, encostada na porta, como quem não
queria nada e fumando outro dos seus cigarros.
- Ele não é um psicopata – Calvin
disse, sem se virar. Ele sabia que pessoas como Mônica só respeitavam quem não demonstrasse
medo deles. E ele queria muito ser respeitado. – É só menino confuso. Mas eu acho que ele está
melhor.
“Esses dias eu o convenci a ir a uma
festa de um colega de sala dele.
“Tenho certeza de que neste exato momento,
ele não está pensando em morte nem em nada desse tipo.
Mas ele estava. E um bocado.
Gustavo chegou em casa exausto. Toda
aquelas pessoas vazias o cansaram demais. Tão jovens e já tinham se entregado
ao sistema... E o pior, sem lutar. Será que eles ao menos percebiam o quanto estavam alienados em suas roupinhas de grife e
maturidade forçada?
Mas ele percebia. E era o que
importava. Ele ficou um bom tempo se olhando no espelho até foi até seu quarto
e pegou um estilete na escrivaninha. Seu reflexo parecia tão bonito naquela
lâmina... Começou a roçar seu pulso com ela, mas o barulho da campainha vindo
de seu computador fez com que ele se assustasse e guardasse o objeto.
Era Mirela. Ao menos uma coisa boa
havia acontecido naquela festa. Parecia ser bom demais pra ser verdade.
- Gus, você está ai? – ela perguntou.
Claro que estava.
No dia seguinte, a conversa com
Gustavo surpreendeu Calvin.
- Ontem aconteceu uma coisa legal – o
menino começou.
- Conta ai.
- Conheci uma garota.
- Mentira! E vocês ficaram se olhando
para ver quem era o mais bem vestido?
- Larga mão de ser bobo. Conversamos
sobre músicas. Ela também curte rock fractal.
- Puxa...
- E depois nós ficamos – havia uma
nota de emoção na voz dele. Mais emoção do que Benny jamais vira em dois meses
de conversa com Gustavo.
-
Olha só.
E eis que o pé mutante tropeçou no
chinelo mal fabricado. Quem diria? – ele pensou, mas não disse.
- Olha só, você.
As fotos de Mirela encheram a tela. E
não é que ela não tinha um terceiro olho ou coisa do tipo? Ele realmente tinha
muito bom gosto pra mulher...
Mais uma noite de sábado de plantão.
Calvin babava sobre mesa de trabalho. O
rélógio de seu notebook marca 11h30mim. De repente, ele acordou. Levantou-se e
se espreguiçou. Tomou um grande copo de café frio que estava ao lado do laptop
e bocejou.
Conferiu a tela. Nenhum contato estava
on-line. Nem mesmo Gustavo.
Há uma semana o garoto não aparecia
para conversar. Provavelmente estava se acabando de tanto sexo. E Calvin um
bocado enjoado de ficar conversando com gente que queria morrer o dia inteiro.
Aquele garoto não ia se matar, não importa o que aquele sistema idiota
continuasse dizendo isso.
Se aquela gente não queria curtir a vida,
ele é que não ia cometer o mesmo erro. Até onde Calvin sabia, aquela era a
única vida que ele iria ter
Pegou o celular o procurou o nome dela
na agenda.
- Oi, minha linda. Sim, sou eu, Bem Calvin,
ta lembrada? Pois é... Eu sei... Mas você sabe como é a Muniz... Pois é. Acho
que ela me odeia. Não me dá um segundo de folga. Ela por acaso é sapatão? –
pausa e uma risada feminina - Pois parece... Você não estaria a fim de um
drink com este anjo cansado, estaria? Perfeito!.
O relógio do computador de Calvin
marcava 2h30mim quando a voz de Gustavo encheu o escritório.
- Benny, você ta ai? Cara você não vai
acreditar... ela terminou comigo! Eu não consigo acreditar.... Benny?
Às cinco da manhã a cena se repetiu. O
desespero da voz saindo pelos alto-falantes é que havia aumentado.
- Benny, você ainda não voltou? Cadê
você?
Gustavo se levantou do computador. No
seu plano de fundo, havia uma foto dele abraçado com Mirela. Ele não conseguia
sequer olhar pra ela. E naquela noite nem mesmo Benny estava lá pra conversar
com ele... Como podia ter acabado, tão rápido?
O passa fora dela ainda ecoava
fresquinho nos ouvidos dele:
“Você é muito legal, Gus. No começo
estava legal, mas agora... acho que não temos nada em comum um com o outro. Me
perdoa, ta?
Mas ele não conseguia perdoar. E acima
de tudo não conseguia se perdoar por
ter sido tão ingênuo a ponto de pensar que aquilo podia dar certo.
Ele pegou o estilete e se dirigiu ao
banheiro.
Tirou toda a roupa e entrou no
chuveiro. Ele não pensou muito no que estava fazendo. Só ficou olhando a água
caindo, enquanto seu sangue se misturava com ela.
Calvin foi direto para o trabalho. Nem
sequer passou em casa para tomar um banho. Há quanto tempo não se jogava numa
balada? Apesar de amassado, ele se sentia muito bem. Sua felicidade se evaporou
no momento em que viu o envelope pardo com seu nome sobre sua mesa.
Dentro dele havia a imagem de um anjo.
Toda manchada de sangue.
Ele não teve muito tempo de pensar
naquilo, porque logo em seguida seu celular começou a tocar. Era a senhorita
Muniz.
Enquanto caminhavam para fora da
funerária, Calvin pensava no quanto a vida podia ser irônica.
-
Acabou. O cara se matou mesmo. E levou meu emprego junto.
- Novatos... São todos iguais... Já esperávamos
isso. Eu também perdi três no meu primeiro ano de trabalho com os Anjos.
-
Ouvindo você falar, dá até pra pensar que já foi humana um dia,
Senhorita Muniz.
- Humana talvez, tola jamais.
-
Mas, me diga, o que quer dizer isso?
Calvin tirou do bolso a foto do anjo ensanguentado
e a entregou a Mônica.
- Que alguém do escritório ficou
sabendo antes e quis pregar uma peça em você.
- Pois é... E o cara morreu.
- Sim.. E o que aprendemos com isso?
- Que não importa o quanto nos esforcemos,
é impossível salvar eles?
- Não, seu idiota. Aprendemos que o sistema
nunca erra. Que isso lhe sirva de lição no futuro. Se ele lhe disser que algo
vai acontecer, fique alerta e não saia saracoteando por ai.
Não importava o quanto eu estivesse triste
pela morte do garoto. O que Calvin realmente gostaria de saber era quem tinha
mandando aquele desenho.
Mônica se sentou e jogou o pedaço de
papel fotográfico no fatiador de papel. Quantas vezes já tinha feito aquilo?
Não importava. Aquilo ainda a
incomodava de uma forma que ela jamais seria capaz de admitir. Não era a falta
de digitais ou qualquer vestígio pudesse levar ao autor daquilo.
Era a vontade de fumar que aquilo lhe
provocava.