quinta-feira, 5 de julho de 2012


TRADUTOR UNIVERSAL


Fred abriu a caixa com tanta sofreguidão que parecia uma criança abrindo um brinquedo que ganhou de natal.
Já fazia algum tempo que ele não era mais aquela criança e nem muito mesmo ganhava nada dos pais, mas seus dedos ainda estavam grudentos por causa da fita adesiva... Aquilo trouxe uma sensação reconfortante que só foi amplificada quando ele começou a girar a caixa nas mãos. Ela era bem pequena e era toda prateada. Não tinha nada escrito, apenas trazia gravado o desenho de uma pequena pera.
Fred ainda se lembrava dos comerciais da Pear Inc. Eles eram sempre modernos e limpos como tudo o que eles faziam. Fred sempre apreciara toda aquela branquidão precisa. A melhor parte deles eram o final. Moral da história, crianças: A tecnologia só tem sentido se servir para ajudar as pessoas. Fred não podia falar pelos outros clientes da Pear, mas com certeza ela iria ajuda-lo com seu problema.
Bastava apenas um toque no botão que ficava no alto para que a tela se acendesse. “A luz do conhecimento” – Fred pensou. Mal haviam se passado alguns segundos e ele já se sentia o próprio Prometeu – sem as correntes e a águia, é claro.
Fred pegou uma revista feita para promover a fábrica e a folheou até encontrar o que queria. Um anúncio totalmente escrito em inglês. Ele apontou a pequena câmera que ficava na traseira do aparelho para ele.  Em seguida deu um toque no botão “Traduzir”.
A tela mostrou uma pequena faixa deslizante seguida da palavra “processando”. Alguns segundos depois, o texto estava lá, claro como cristal e escrito na sua própria língua.
“Muito bem” – Fred pensou. Mas não havia mérito nenhum em traduzir meia dúzia das palavras mais batidas da língua. O desafio que ele tinha pela frente era muito, muito maior. Seu brinquedo novo ainda precisava mostrar a que viera.
Perto do trabalho havia um museu – e uma oportunidade de ver se os engenheiros  que haviam criado aquela coisinha mereciam realmente seus gordos salários. Fred deu uma fugidinha até lá e ficou arrepiado ao perceber que não havia dialeto ou linguagem, por mais antiga que fosse que resistisse ao simpático aparelhinho..
É... ele se saia muito bem com texto e estava certo que aqueles hiroglifos egípcios não eram bolinho, mas o site da Pear dizia que aquele era um aparelho para ser usado em todas as ocasiões e lugares.
A chance de fazer o teste definitivo veio na hora do almoço. O rapaz estava no refeitório quando os ouviu conversar. O garfo ficou congelado no ar e um pedaço de bife se desprendeu lentamente dele, enquanto em algum lugar de sua mente, Fred ouvia alguém comentar sobre a futura visita dos sócios estrangeiros. Fred não entendia lhufas de idiomas, mas podia jurar que o que eles falavam era alemão.
Sacou o tradutor universal do bolso e o apontou para eles.
Desta vez o processamento demorou mais, mas não decepcionou. As bocas continuavam se movimentando enquanto as pequenas letras amarelas começavam a aparecer na parte de baixo da tela. Fred ficou tanto assistindo deliciado à conversa dos gringos que estourou o horário de almoço. Coitados. Eles ficavam lá fazendo piadinhas entre eles, achando que ninguém naquela terra de ninguém era capaz de entendê-los. Será que a Alemanha estava fora do mapa da Pear?
Fred custou a esperar que a tarde terminasse para poder ir para casa. Aquelas quatro horas se arrastaram muito mais que quatro milênios.
Mal ele chegou em casa o som começou como sempre acontecia.
Era algo estranho e tão alienígena que não podia ser emitido por uma boca humana. Mas era. A estática se alternava com guinchos, tão altos que faziam a cabeça de Fred doer. E pensar que quem fazia aquele barulho era sua esposa...
Apenas alguns meses depois de eles terem se casado, a voz maravilhosa dela foi sendo substituída aos poucos por aquilo. No começo, Fred achou que estava tendo problemas de audição, mas cinco visitas a médicos diferentes convenceram-no que não.
Quando a mulher entrou no quarto, o guincho-estática aumentou tanto que Fred pensou que ia ficar surdo. O momento para o qual ele havia se preparado o dia todo havia chegado. Ou vai ou racha.
Não pensou muito. Sacou o tradutor e apontou para a esposa.
Passou-se muito tempo até a barrinha parasse de deslizar pela tela. E nesse meio tempo o som apenas piorava. A expressão de Fred mudou várias vezes no decorrer do processo. Naquele rosto jovem já meio marcado, a esperança deu lugar à apreensão. E no fim, as duas foram substituídas pela total descrença.
Fred saiu de casa furioso. Tinha apenas vinte e sete anos e já ia para o bar todos os dias. Não sabia o que a mãe diria se ainda estivesse viva e percebesse que ele havia se tornado uma versão piorada do pai mas com certeza não ia ser coisa boa. Gentileza nunca tinha sido com ela, que Deus a tenha!
E o gadget que havia custado tantos de seus suados reais foi parar numa lixeira que Fred encontrou pelo caminho.
Os minutos passaram e muitas garrafas foram enxugadas. Fred já se preparava para ir para casa disposto a acabar de vez com aquela situação quando o tradutor universal encontrou um novo dono – pelo menos até o fim de nossa história.
O mendigo revirava a lata de lixo quando em busca de algo com que forrar o estômago quando deu de cara com aquela peça de metal e plástico que parecia ser quase lisa. Ele a observou por um tempo e o levou ao ouvido pensando que fosse um celular. Até disse “Alô”. Quando tocou seu ouvido a pequena tela se acendeu – o que não foi surpresa nenhuma, já que a Pear dizia que seu produto poderia ficar ligado por duas semanas ininterruptas.
A tela iluminava a rua escura e o homem não pôde deixar de olhar para ela.
Ele parecia hipnotizado com o que estava vendo. Congelada no LCD estava a última imagem que o aparelho havia captado antes de Fred coloca-lo em stand by sem perceber. Lá estava a esposa do rapaz, com uma expressão estranha, como se estivesse preparada para atacar quem estivesse do outro lado da tela. Sobre ela, estava escrito, em grandes letras vermelhas:
IMPOSSÍVEL TRADUZIR




ANJOS VIRTUAIS
Episódio 01 - Gustavo


O jovem caminhava pela rua tentando prestar atenção ao seu redor.
               Quantas e quantas vezes podemos passar pelo mesmo lugar, ver as mesmas pessoas e nem prestar atenção? Acho que chega uma hora que nosso cérebro, incapaz de de processar tudo o que vê e escuta durante todo o dia, começa a ignorar coisas para não se sobrecarregar. E esse é nosso maior erro.
               Vendo as pessoas no ponto de ônibus Benny pensou no quanto as aparências enganam.  Quem eram realmente elas? Quem poderia saber? Quem poderia dizer se aquela sorridente mocinha de cabelos amarrados ou o garoto de cara fechada escondem alguma dor? Talvez uma dor tão profunda que os fizesse sentir vontade de acabar com a própria vida?
               E olhando para ele, o que alguém diria? Pelo terno cheirando a novo e o cabelo cortado num estilo meio rebelde sem causa, você provavelmente diria que ele é um jovem executivo. Se olhasse mais perto e visse os tênis vermelhos, você provavelmente diria que ele é um daqueles caras talentosos que fazem sites e ganham mais dinheiro que um pais.
               Mas você estaria errado. Benny é um anjo.
               Não daquele tipo de que fala a bíblia. Com certeza não daquele tipo que aparece nos filmes. Benny era de um tipo mais mundano, isso eu lhe garanto. Mas nem por isso menos interessante.
               Benny era um anjo virtual.

               Quando se aproximou do prédio espelhado e cumprimentou o vigia pelo nome, Benny pensou no quanto era sortudo. Tinha um emprego que pagava muito e podia fazer o que quisesse da vida, sem depender dos pais. Para Benny, depender de alguém era o mesmo que estar acorrentado. E ele não gostava daquela sensação. Gostava de voar. Talvez algum dia, quando já tivesse grana bastante, ele talvez voasse para longe dali.
               Enquanto atravessava o saguão rumo ao elevador, ele pensou no quanto aquele lugar de aparência moderna parecia inocente. A aparência distinta escondia um grande complexo, com um subsolo cheio de supercomputadores de última geração e especialistas em campos da informática e da psicologia que Benny nem sonhava que existia. Mas o mais surpreendente era a finalidade da coisa.
Toda essa gente se empenhava em um conto de fadas. Uma utopia, se você quiser assim. E pensar que há apenas um mês ele havia colocado os pés no escritório da senhorita Muniz.

               Antes de entrar, Benny ficou um tempinho na porta, espiando a sala e tentando descobrir alguma coisa sobre sua dona. O lugar não era muito mobiliado. Nada de arquivos ou decoração. Apenas uma mesa com um laptop e algumas cadeiras. Nada de retratos com os filhos ou coisa do tipo, o que deixou Benny intrigado.
               Mônica era uma mulher de seus quarenta e poucos anos. Folheava nervosamente um jornal impresso – outro anacronismo? – quando Calvin e pareceu não perceber que ele já estava ali há quase três minutos. Apenas pareceu.
               - Não vai entrar, senhor Calvin – ela perguntou com sua voz rouca e um pouco aveludada. Era o tipo de voz que se fazia ser ouvida sem precisar gritar. Por um momento Calvin pensou a senhorita Muniz era o tipo de pessoa que conseguirir fazer alguém sofrer muito sem erguer a voz.
               Calvin não se moveu.
               - Eu sei quem é. Eu o selecionei pessoalmente, sabia?
               Não vou tremer agora – Calvin pensou – gente como ela nunca respeita quem treme no primeiro encontro.
               - Bom dia, senhorita Muniz – Calvin entrou e se deixou cair preguiçosamente em uma cadeira em estilo antigo. Ela não se lhe estendeu a mão. Calvin não se surpreendeu. Estava começando a entender o que ia enfrentar. Gente marrenta não era nenhuma novidade na sua vida. A única novidade era o marrento usar terninho.
               - Sr. Calvin, - Mônica perguntou -  O senhor por acaso tem ideia de quantas pessoas cometeram suicídio hoje, só nesta cidade?
- Quinze.  – Calvin respondeu sem pestanejar - Estamos tendo uma semana agitada.
A senhorita Muniz permaneceu em silêncio, olhando para ele.
- Eu pesquisei antes de vir pra cá – ele teimou em acrescentar. Quem era aquela mulher, que o fazia se sentir um menininho que foi apanhado roubando doce?
- Aposto que pesquisou nos lugares errados. – Mônica deu uma pausa enquanto acendia um cigarro. Estavam no subsolo e ela parecia uma chaminé ambulante. Provavelmente as leis de fumantes não se aplicavam ali. Ou, provavelmente a senhorita Muniz não estava nem ai. -  Para seu governo, estamos tendo uma semana calma. – Ela acrescentou suavemente. - As pessoas parecem que ficam mais otimistas depois das festas de fim-de-ano. E eu aposto que também andou fazendo uma pesquisa de campo a meu respeito, não é verdade? E provavelmente descobriu nela que chegar adiantado e vir de gravata vermelha ajudaria a causar boa impressão. Eu sei até a quem perguntou... Você por acaso tem alguma idéia do porque foi escolhido entre tantas pessoas?
Calvin se sentiu lido como se fosse aquele jornal sanguinolento que ela segurava. Tudo o que ele conseguiu dizer foi:
- Por causa do meu currículo?
- Não seu idiota. Foi porque seduziu uma de nossas psicólogas no dia da sua entrevista.
Um flash passou pela mente de Calvin. Ele e uma jovem loura linda. Nessas horas Calvin se admirava o quanto a vida podia surpreender. Ele fora ali esperando conseguir um emprego e tinha conseguido sexo selvagem na biblioteca.
- Como disse? – perguntou meio que por perguntar. Para que ele não pensasse que ele era um cínico. Mas no fundo ele sabia que ela não se deixaria convencer. Gente como a senhorita Muniz estava acostumada a devorar gente como ele no café da manhã e Benny sabia disso.
- Temos muitas câmeras nesse prédio, Sr. Calvin – ela disse, confirmando o que ele já sabia. – Mas isso não vem ao caso. O que importa é que aquela garota linda e bem vestida foi colocada ali de propósito. Ela ficou lá, dando mole, dando todos os sinais de que estava no cio e nenhum dos idiotas se importou com ela, ou fingiu que não se importava.  Apenas você aceitou correr o risco.  Como você vai ver, sinais são coisas muito importantes no nosso ramo. E saber quando quebrar o protocolo também. Na maioria das vezes nós andamos na corda bamba e não podemos nos dar ao luxo de gastar segundos preciosos pensando se devemos ou não fazer alguma coisa.
- A senhora fala como se eu fosse praticar aplinismo e não conversar com gente depressiva o dia todo.
- Ah, só Deus sabe o quanto eu invejo os alpinistas e suas vidinhas pacatas, Calvin.

Naquela noite, enquanto voltava para casa de metrô, Calvin ficou repassando o restante da entrevista, principalmente a resposta que recebeu quando perguntou, como tudo tinha começado.
- A história que você vai ouvir é uma história batida, Calvin – ela começou, acendendo mais um de seus cigarros de menta caros -  Mas a causa não importa tanto assim quanto você possa pensar. As causas são sempre as mesmas. As consequências é que fazem a diferença.
“Como era de se imaginar, nos tornamos "Anjos" por causa de um suicídio.
“Da esposa de um milionário – o Sr. Charles.
“Ela tinha uma vida de princesa. Ou pelo menos o Sr. Charles achava que dava a ela uma vida assim. Mas isso não quer dizer grande coisa. Ela era querida e muito invejada. E nada feliz.
“Nos últimos tempos estava se tornando cada vez mais triste. Entende o que falei sobre os sinais?
“O Sr. Charles achou que era apenas tristeza, cansaço, sei lá. Ou a idade... Ou o peso de cuidar de uma família tão numerosa. Como a maioria dos maridos, ele não entendeu os sinais.
Muniz deu uma estranha pausa enquanto dava uma tragada longa e olhou para ele.
- Ela não deixou bilhete.
Aquela frase ficou martelando na cabeça de Calvin por um longo tempo. Não foram as palavras. Provavelmente foi o olhar.
- O senhor Charles percebeu seu erro rápido – Mônica prosseguiu. - E decidiu, seja por causa de um altruísmo enorme ou de um egoísmo maior ainda, que não permitiria que outros fossem tão idiotas quanto ele.
“E , alguns anos e milhões depois, estamos aqui. Os ANJOS VIRTUAIS.
“O nome é cafona, eu sei. Mas é bem adequado, porque tentamos salvar pessoas o tempo todo. Mas acho que você já sabe d isso. O que leva a me perguntar porque. Porque está aqui?
- Um conhecido meu trabalhou pra vocês.
- Ah, sim, o Roberto. Eu me lembro dele. Pena que ele se envolveu demais com o trabalho. É um risco que todos corremos.
- Pois é. Ele me disse que o emprego era estressante. Mas me contou quanto ganhava. E pra mim isso é que importa.
- Que bom que não me enganei. Eu raramente me engano. É o que me torna ideal para estar aqui. Eu não ligo para suas crenças pessoais, ou seja lá o que for, contanto que faça seu trabalho. Venha, vamos conhecer sua nova sala.
Neste instante ela se levantou e se dirigiu até a porta. Calvin a seguiu e pegou no seu braço. Ele sabia que inevitavelmente iria dizer o que disse em algum momento. Era parte da sua natureza. E sendo ela quem era ou não, ainda era mulher.
- Puxa, senhorita Muniz, quanta amargura. Aposto que a gente poderia dissolver toda ela num jantar num lugar bem elegante.
Ela retirou sua mão num gesto rápido, porém preciso, como tudo o que fazia.
- E eu aposto que não seria mau fazermos uma parada no andar da Psicologia, não acha? Aquela menina ainda está esperando sua ligação...
Calvin nem teve tempo de se sentir envergonhado. Sabia que no fundo, ela o havia adorado.

O primeiro caso de Calvin foi o Gustavo.
Era um simpático garoto de dezesseis anos com olhos amendoados. E nenhum problema de saúde, como Calvin podia presumir pelo seu histórico médico.
Além disso, era dono de um excelente gosto para mulher, como o agente pôde verificar pelos seus logs em redes sociais.
O que Calvin realmente lastimou foi o gosto musical do guri.
O que tornava Gustavo tão interessante a ponto da I.A. dos Anjos terem-no pinçado do oceano de informações que era a World Wide Web, era o seu comportamento nos últimos seis meses.
Uma rápida passada de olhos de um psicólogo só confirmou o que o computador já sabia.
O primeiro sintoma era a quantidade de tranqueiras que o garoto andava comprando. Será que estava tentando preencher algum tipo de vazio?
Segundo sintoma: pelas faturas do cartão de crédito dele, dava pra ver que o moleque andava se entupindo de fast-food. Seria aquilo sintoma de ansiedade?
Será que o velho dele tinha tanto dinheiro que um rombo daqueles passaria batido?
Sim, ele tinha. E isso complicava um bocado as coisas.
O terceiro sintoma, na opnião de Calvin era que, segundo os hackers de plantão, o consumo de pornografia havia diminuído a quase zero, o que não era nada comum na idade dele.
Se tivesse algum amigo íntimo ou uma namorada a quem contar, Calvin teria se esbaldado contando sobre o quanto realmente gostava naquela coisa de ser um anjo. Não havia limite para o que ele pudesse fazer. Havia juízes  para conseguir mandatos e até gente do governo trabalhando com a organização em situações espinhosas. Contas bancárias? Documentos sigilosos? Aquilo era brincadeira de criança para eles.
Calvin pensou em tentar descobrir como andavam se virando os pais, mas resolveu deixar pra lá. Não queria perguntas.
Enquanto olhava o boletim de Gustavo, ele se pegou pensando que poderia ter tido pais piores. Como por exemplo, os pais do menino. Que espécie de pessoa não via que havia algo errado? As notas dele sempre foram boas, mas no último trimestre, haviam despencado....
E olhando para a foto deles sorridentes, ao lado do filho, qualquer jurariam que eram uma família próspera e feliz.
“Quem vê cara não vê depressão – era o que a mãe de Calvin costumava dizer.

               Quando recebeu sua nova sala, Calvin também recebeu uma embalagem com vários DVDs, onde estava escrito “VÍDEOS DE TREINAMENTO”. Pelo visto a senhorita Muniz também sabia do quanto ele antipatizava com salas de aula e educação formal em geral.
               Calvin pegou o primeiro deles, onde estava escrito 0001 e o colocou no computador.
               A voz da senhorita Muniz encheu a sala.
- Muitos se perguntam para que servem os Anjos Virtuais. Se somos tipo um Disque Suicídio ou algo assim. Eu digo que nós somos melhores.
Ele tinha que admitir, apesar da falta de modéstia, ela era irresistível.
- Para que o disque suicídio funcione, a pessoa que quer se matar deve estar consciente disso – continuava ela.
“Também precisa estar disposta a conversar com um estranho, coisa que muitos não estão.
“Nós vamos um passo além. Através de uma combinação do que há de mais modernos em tecnologia, podemos varrer a web em altíssima velocidade e identificar potenciais suicidas.
Calvin desligou o vídeo. Estava cansado de tanta falação. Pra ele o que contava era a ação.  E para isso era preciso entrar em contato com os suicidas. Um bom lugar para começar eram chats e páginas de relacionamento.
Nos últimos tempos, a web borbulhava com comentários sobre um certo site chamado almassolitárias.com. Claro que tudo aquilo não passava de burburinho virtual lançado por gente de Muniz em páginas, baladas e os lugares mais improváveis possível. Na opinião de Calvin aquele era o melhor tipo de maketing, o que você nem percebia que estava comprando um produto.
E pelo jeito o pessoal da idade do Gustavo andava comprando um bocado, já que ele não saia do “almas”.

À meia noite e meia LostBoy17 logou religiosamente no site como fazia quase todos os dias. Ele foi seguido por Anjo27.


               Calvin estava no seu escritório adormecido quando ouviu o barulhinho de uma campainha de telefone antigo saindo do computador. Eram quase duas da manhã e ele soltou um longo bocejo.
               - Ei, - Gustavo perguntava na tela – você está ai?
               Qual era o problema com os garotos de hoje em dia? Será que ninguém mais sabia aproveitar uma madrugada de sábado?
               A senhorita Muniz tinha razão quando dissera que a vida social de Calvin tinha evaporado no minuto em que ele assinara o contrato de trabalho. Benyy tinha esperanças de que aquilo fosse apenas um gracejo.
               - Como vai garoto? – perguntou, tentando disfarçar o mau-humor.
- Tudo beleza. E com você?
Na primeira vez em que  conversaram, ele achou que Calvin era um tarado. Agora era seu amigo do peito, o que queria dizer que Engenharia Social não estava tão fora de moda assim.
               - Vou sobreviver a este emprego medíocre – Calvin falou, bebericando um pouco de café frio. No que dizia respeito a Gustavo ele era um help desk de uma operadora de TV a cabo – contanto que ninguém me pergunte porque não consegue assistir aos canais pornôs.
               Gustavo riu. Aquilo fez Calvin se sentir bem.
               - Lembre-se do que Nietzche dizia – Gustavo disse – o que não te mata te fortalece.
               O que um pirralho daquele podia saber sobre Nietzche. Provavelmente havia pegando aquilo em algum site.
- E ai? Ouviu as músicas que te mandei?
               -  Claro. Música da melhor qualidade.
O pobre achava que Calvin era, tipo, uma alma gêmea, que gostava da mesma música ruim. O duro era que as músicas que ele ouvia alternavam entre a depressão e necessidade de quebrar coisas. Não era a toa que ele está querendo se matar, depois de ouvir aquilo tudo...
               - Eu sabia que você ia curtir o Burt.
               Claro, ele era otimo... Quando não  estava grunindo ou incitando os ouvintes a metralhar os pais.....
               - E ai? Já arrumou alguém pra sair hoje? – Calvin perguntou a queima-roupa.
               - Escuta aqui – Gustavo falou, olhando fixamente para câmera e Calvin imaginou como um Burt deveria se parecer – eu por acaso tenho cara de quem precisa de alguém? Tenha dó... Já ouviu falar de autonomia? De auto-suficiência? Além do mais, não tou a fim de dançar a Dança do Acasalamento essa semana.
               Na idade dele, Calvin dançava um bocado.
- Fala sério. Você é gay?
Explicaria muita coisa.
- Não. Só não tou a fim.
- Essa é velha.
Ele devia tremer todo quando está perto de uma menina...
Calvin não disse nada. Apenas colocou a mão sobre o queixo e fica olhando para computador, como quem tentava desvendar um mistério. Como era de se esperar, a confissão veio logo em seguida.
- Tá certo, eu admito. Sou péssimo com mulher.
- Esquenta não garoto. Aos dezessete anos quem não tem?
O Benny Calvin de dezessete anos nunca tivera. Mas contar isso pro garoto provavelmente ia quebrar o encanto.


Duas semanas depois, lá estavam eles, em frente ao computador.
- Nossa, porque esse mal humor todo? – Calvin perguntou.
- Se você tivesse a vida horrível que eu tenho, saberia – o garoto respondeu. Ao fundo Calvin podia ver um baixo com um boné pendurado e alguns pôsteres do Burt.
-  Ah, tenha dó! Você tem pai e mãe. Tem dinheiro e é saudável. Está sempre cercado de gente bonita e não se parece com aquela criatura daquele lago escocês. A maior parte das pessoas desse planeta daria qualquer coisa pra ter vida que você tem.
- Puxa, é mesmo? Puxa que vida maravilhosa que eu tenho... Olha pra mim... eu pareço feliz? Pareço estar saltitando e cantando de felicidade? Não... porque se eu estivesse, era para agradar alguém. Eu não passo de uma casca vazia. Um fantoche. Só sei fazer o que meus pais querem. Vou às festas que eles escolhem, sou amigo de quem eles escolhem.
"Role e finja de morto, Gustavo... Agora pule!". Essa é a minha vida.. Mas eu não tou nessa sozinho. No fim das contas, somos todos fantoches, Benny.
- Eu entendo tudo o que você quer dizer. Se você vê onde estão as cordas, porque não as arrebenta?
- Essa, Benny, é a pergunta.
Mas no fundo Calvin também entendia. Se dependesse dos seus pais, ele também estaria rolando e fingindo de morto. Mas chegou uma hora em que ele conseguiu romper as cordas. Será que Gustavo também conseguiria?
Benny torcia pra que sim.


- E então, como estamos indo com o pequeno psicopata? – Era a senhorita Muniz, encostada na porta, como quem não queria nada e fumando outro dos seus cigarros.
- Ele não é um psicopata – Calvin disse, sem se virar. Ele sabia que pessoas como Mônica só respeitavam quem não demonstrasse medo deles. E ele queria muito ser respeitado. –  É só menino confuso. Mas eu acho que ele está melhor.
“Esses dias eu o convenci a ir a uma festa de um colega de sala dele.
“Tenho certeza de que neste exato momento, ele não está pensando em morte nem em nada desse tipo.
Mas ele estava. E um bocado.
Gustavo chegou em casa exausto. Toda aquelas pessoas vazias o cansaram demais. Tão jovens e já tinham se entregado ao sistema... E o pior, sem lutar. Será que eles ao menos percebiam o quanto estavam alienados em suas roupinhas de grife e maturidade forçada?
Mas ele percebia. E era o que importava. Ele ficou um bom tempo se olhando no espelho até foi até seu quarto e pegou um estilete na escrivaninha. Seu reflexo parecia tão bonito naquela lâmina... Começou a roçar seu pulso com ela, mas o barulho da campainha vindo de seu computador fez com que ele se assustasse e guardasse o objeto.
Era Mirela. Ao menos uma coisa boa havia acontecido naquela festa. Parecia ser bom demais pra ser verdade.
- Gus, você está ai? – ela perguntou.
Claro que estava.


No dia seguinte, a conversa com Gustavo surpreendeu Calvin.
- Ontem aconteceu uma coisa legal – o menino começou.
- Conta ai.
- Conheci uma garota.
- Mentira! E vocês ficaram se olhando para ver quem era o mais bem vestido?
- Larga mão de ser bobo. Conversamos sobre músicas. Ela também curte rock fractal.
- Puxa...
- E depois nós ficamos – havia uma nota de emoção na voz dele. Mais emoção do que Benny jamais vira em dois meses de conversa com Gustavo.
-  Olha só.
E eis que o pé mutante tropeçou no chinelo mal fabricado. Quem diria? – ele pensou, mas não disse.
- Olha só, você.
As fotos de Mirela encheram a tela. E não é que ela não tinha um terceiro olho ou coisa do tipo? Ele realmente tinha muito bom gosto pra mulher...


Mais uma noite de sábado de plantão.
Calvin babava sobre mesa de trabalho. O rélógio de seu notebook marca 11h30mim. De repente, ele acordou. Levantou-se e se espreguiçou. Tomou um grande copo de café frio que estava ao lado do laptop e bocejou.
Conferiu a tela. Nenhum contato estava on-line. Nem mesmo Gustavo.
Há uma semana o garoto não aparecia para conversar. Provavelmente estava se acabando de tanto sexo. E Calvin um bocado enjoado de ficar conversando com gente que queria morrer o dia inteiro. Aquele garoto não ia se matar, não importa o que aquele sistema idiota continuasse dizendo isso.
Se aquela gente não queria curtir a vida, ele é que não ia cometer o mesmo erro. Até onde Calvin sabia, aquela era a única vida que ele iria ter
Pegou o celular o procurou o nome dela na agenda.
- Oi, minha linda. Sim, sou eu, Bem Calvin, ta lembrada? Pois é... Eu sei... Mas você sabe como é a Muniz... Pois é. Acho que ela me odeia. Não me dá um segundo de folga. Ela por acaso é sapatão? – pausa  e uma risada feminina -  Pois parece... Você não estaria a fim de um drink com este anjo cansado, estaria? Perfeito!.


O relógio do computador de Calvin marcava 2h30mim quando a voz de Gustavo encheu o escritório.
- Benny, você ta ai? Cara você não vai acreditar... ela terminou comigo! Eu não consigo acreditar.... Benny?


Às cinco da manhã a cena se repetiu. O desespero da voz saindo pelos alto-falantes é que havia aumentado.
- Benny, você ainda não voltou? Cadê você?


Gustavo se levantou do computador. No seu plano de fundo, havia uma foto dele abraçado com Mirela. Ele não conseguia sequer olhar pra ela. E naquela noite nem mesmo Benny estava lá pra conversar com ele... Como podia ter acabado, tão rápido?
O passa fora dela ainda ecoava fresquinho nos ouvidos dele:
“Você é muito legal, Gus. No começo estava legal, mas agora... acho que não temos nada em comum um com o outro. Me perdoa, ta?
Mas ele não conseguia perdoar. E acima de tudo não conseguia se perdoar por ter sido tão ingênuo a ponto de pensar que aquilo podia dar certo.
Ele pegou o estilete e se dirigiu ao banheiro.
Tirou toda a roupa e entrou no chuveiro. Ele não pensou muito no que estava fazendo. Só ficou olhando a água caindo, enquanto seu sangue se misturava com ela.


Calvin foi direto para o trabalho. Nem sequer passou em casa para tomar um banho. Há quanto tempo não se jogava numa balada? Apesar de amassado, ele se sentia muito bem. Sua felicidade se evaporou no momento em que viu o envelope pardo com seu nome sobre sua mesa.
Dentro dele havia a imagem de um anjo. Toda manchada de sangue.
Ele não teve muito tempo de pensar naquilo, porque logo em seguida seu celular começou a tocar. Era a senhorita Muniz.


Enquanto caminhavam para fora da funerária, Calvin pensava no quanto a vida podia ser irônica.
-  Acabou. O cara se matou mesmo. E levou meu emprego junto.
- Novatos... São todos iguais... Já esperávamos isso. Eu também perdi três no meu primeiro ano de trabalho com os Anjos.
-  Ouvindo você falar, dá até pra pensar que já foi humana um dia, Senhorita Muniz.
- Humana talvez, tola jamais.
-  Mas, me diga, o que quer dizer isso?
Calvin tirou do bolso a foto do anjo ensanguentado e a entregou a Mônica.
- Que alguém do escritório ficou sabendo antes e quis pregar uma peça em você.
- Pois é... E o cara morreu.
- Sim.. E o que aprendemos com isso?
- Que não importa o quanto nos esforcemos, é impossível salvar eles?
- Não, seu idiota. Aprendemos que o sistema nunca erra. Que isso lhe sirva de lição no futuro. Se ele lhe disser que algo vai acontecer, fique alerta e não saia saracoteando por ai.
Não importava o quanto eu estivesse triste pela morte do garoto. O que Calvin realmente gostaria de saber era quem tinha mandando aquele desenho.


Mônica se sentou e jogou o pedaço de papel fotográfico no fatiador de papel. Quantas vezes já tinha feito aquilo?
Não importava. Aquilo ainda a incomodava de uma forma que ela jamais seria capaz de admitir. Não era a falta de digitais ou qualquer vestígio pudesse levar ao autor daquilo.
Era a vontade de fumar que aquilo lhe provocava.