quarta-feira, 21 de novembro de 2012


VIZINHANÇA DOS
MORTOS
(primeiro tratamento)

por Reginaldo Costa



            - Me fala uma coisa, florzinha – Chris falou, ajudando-o a levantar.
               - Oi? – o Fanboy ainda parecia chocado. Há menos de um minuto ele estava barganhando com uma garota gorda por um álbum de figurinhas. Aquele era um dos únicos itens de memorablia que haviam saído na época da exibição original de “Vizinhança”. E estava completo, o que era mais raro.
               Foi então que as duas coisas chegaram sorrateiramente e devoraram a gorda, gananciosa demais para seu próprio bem. Em poucos segundos, ele estava cercado. E se não fosse por aquele homem estranho e suas facas, ele teria se juntado a ela.
               - Quantos filmes de zumbi você já viu? – De pé, o mundo começava a entrar em foco novamente.
               - Sei lá – o fanboy falou, tentando limpar o sangue. – Trocentos.
               - E mesmo assim não reconheceu um de verdade, mesmo que ele estivesse fungando no seu cangote.
               Os olhos do fanboy percorreram o ambiente rapidamente. Aquilo não parecia mais o pequeno shopping Center da cidade. Parecia uma zona de guerra. E ali, próximo a uma poça de sangue, ele viu o álbum, intacto. Havia caído no meio da confusão. É impressionante como nos apegamos a ninharias, mesmo que o mundo esteja desmoronando.
               - Larga isso ai – Chris bateu na mão dele e a raridade mergulhou na poça de sangue.
               - Qual é seu problema? – o fanboy gritou. Mas não era por causa da dor que o tapa provocara. Também não era por causa dos arranhões que conseguira tentando fugir das coisas. O que machucava realmente era saber que o fato de ainda estar vivo era por conta de um cara horrível daqueles.
               Enquanto caminhavam, o fanboy notou a suástica tatuada no braço dele através de um rasgo na roupa camuflada e não se surpreendeu. Tipos como aquele sempre tinham suástica. E também sempre vestiam roupas camufladas. E no fundinho, o fanboy também não gostou, mas tinha que admitir que aquele fosse exatamente o tipo de pessoa de quem se precisava se o apocalipse zumbi começasse, o que parecia o caso.
               O fanboy estava acostumado aos paradoxos, ainda mais depois de todos aqueles anos desfrutando dos prazeres culpados aqueles filmes e seriados de quem somente ele e a mãe do diretor gostavam podiam proporcionar.  Embora seu cérebro dissesse que Chris era o cara certo para salvar sua pele, seu coração dizia para ficar longe dele, porque ele era louco.
               Eles se juntaram a outras pessoas, amuadas dentro de uma loja esportiva. Pareciam ser os únicos sobreviventes do massacre. O fanboy começou a observá-los detalhadamente, como se estivesse assistindo a um novo piloto e avaliando as possibilidades. Lado a lado, como se fossem um corredor polonês estavam:              
·        O frentista desconhecido com cara de galã de novela.
·        Dulce Salgado: uma das atrizes do seriado. Uma mulher estranha de ar andrógena com cabelo branco.
·        Samantha Knight: Uma loura de meia idade e óculos de fundo de garrafa. Ela tinha escrito o livro que servira de base para o seriado.  A voz dela era estridente, principalmente quando falava ao microfone. Mas o fanboy sempre a ouvia extasiado, porque ela era uma fonte de boas ideias, embora poucos reconhecessem isso.
·        E o louco, é claro. Não era tipo, uma regra, que todo filme de zumbi devia ter um cara daqueles? Afinal, alguém tinha que atirar nas coisas enquanto as calças das pessoas normais ficavam mais pesadas.
               Mas aquilo não era um filme. Não era mais uma daquelas coisas acéfalas que o fanboy detestava, destilando a síndrome de Frankenstein em cada fala tosca, em cada cena mal resolvida. Era vida real, por mais insana que pudesse parecer. Tudo o que o fanboy queria era descobrir que tudo aquilo não passava de um delírio e que ele era o sonho de uma garotinha numa cela acolchoada. Mas não era.
               - Vão ficar aqui me olhando ou podemos sair daqui, meninas? – Chris perguntou. O fanboy sabia que este era seu nome, porque estava escrito no bolso dele.
               - Pra onde vamos? – o fanboy perguntou. E os outros o olharam com certo respeito. Ele era do tipo que vestia a camisa e sabia os episódios de cor, a ponto de citá-los no trabalho. Ninguém nunca havia olhado para ele daquele jeito, o que fez com que se sentisse um pouquinho melhor. Mas só um pouquinho.
               - Pro estacionamento – Chris falou calmamente.
               - Está louco? – O frentista falou. Pelo jeito ele também tinha visto um monte de filmes de zumbi, visto que falou em seguida. – Temos que ir para um espaço aberto. O estacionamento é o pior lugar para se ir numa situação dessas.
               - Pois é, doce de coco – Chris falou. Ele também não gostava do frentista. O fanboy conhecia vem o tipo. Gente como Chris não gostava e não respeitava ninguém. Isso fez com que o que fez com que o fanboy gostasse mais do homem que ele logo descobriria se chamar Denis de imediato. – só que eu estou quase se munição. E todas as saídas estão cercadas. No meu carro eu tenho outras armas. A gente pode usar elas para matar o resto das coisas.
               Mesmo achando que aquilo era uma péssima ideia, eles decidiram seguir Chris. Deixaram o corpo do casal zumbi para trás e se dirigiram às escadas rolantes. Por sorte a energia ainda não começara a bruxulear e dar um ar ainda mais clichê àquilo tudo. Graças a deus pelos pequenos favores... Se é que aquilo era um favor, já que eles poderiam ver em 10D altíssima resolução quando uma daquelas coisas resolvesse se arriscar a experimentar mais um pouco de carne humana ao molho de gengibre.
               “Porque eu tinha de sair de casa hoje? – o fanboy quando a escada chegou ao fim. A resposta veio rápida. Porque ele era compulsivo. Porque não conseguia passar sem todos aqueles pequenos mimos. De outra forma, como ele poderia enfrentar aquele trabalho horrível, com todas aquelas pessoas horríveis, se ao final do mês, não houvesse uma recompensa? O fanboy ficou pensando no que seu velho psiquiatra diria se por acaso um zumbi invadisse seu consultório e arrancasse um pedaço dele?
               Não houve uma resposta. Não houve a voz cálida de um narrador explicando tudo em tom sarcástico como na série, ou pelo menos dizendo o título do episódio. E é claro que não haveria. Nos filmes de zumbi os caras raramente se davam ao trabalho de explicar alguma coisa. Era só atirar e correr. Porque tudo o que os sádicos do outro lado da telinha queriam era sangue e vísceras, para aquecer suas vidinhas mornas. Então que assim seja. Amém, baby.
***      ***
               Denis sempre soube que se daria mal por causa de uma mulher. Ou por causa de várias, como era o caso.
               Não fosse uma consciência pesada, ele poderia estar em casa, curtindo um jogo de futebol e tomando uma cerveja bem gelada ao invés de estar correndo pelos corredores de um shopping Center tentando escapar de gente morta que comia gente viva.
               Não fosse a sua compulsão por trair as mulheres com quem namorava, ele não precisaria ficar constantemente compensando-as. Mas agora Sofia estava morta e não adiantava ficar pensando nisso.
               Ah, Sofia. Tão bonita e tão burrinha. Tão deslumbrada e tão pateta.
               Denis tinha lido em algum lugar que aquilo mais amamos um dia nos mata, mas aquilo já era um pouco demais. Ela havia morrido por causa do seu amor incondicional a um seriado cancelado muitos anos antes de ela nascer. Aquilo era loucura demais para Dennis.
Ao lado dele corria a senhorita Knight. Senhorita ela havia frisado quando ele a conhecera muitos anos atrás numa convenção igual àquela. Bom, não teve gente comendo gente, mas você entendeu né?. Quando apertara a mão de Denis, o dedo dela havia deslizado suavemente pela palma da mão dele. Demorada e calidamente.
“Sempre paquera os namorados de suas fãs, senhorita Knight? – Denis teve vontade de perguntar.
“Somente quando eles são bonitões e cheiram a gasolina, apesar de terem tomado quatro banhos antes de sair de casa – ele a imaginou respondendo. Mas tudo não passou de uma fantasia pela qual ele teria que compensar Sofia naquela noite. Embora ela não soubesse disso.
Denis não entendia aquela coisa de zumbi. Para ele, ou uma coisa estava viva ou morta. Esse lance de mortos vivos era uma coisa tão sem lógica que chegava a ser ridícula. Achava estranho uma garota bonita como Sofia preferir passar boa parte de seu tempo cercada de gente esquisita, como o garoto de óculos que corria à sua esquerda, mas ele não a criticava abertamente como fazia a família dela e  alguns “amigos”. Para ele, tudo o que importava era que ela estivesse feliz, mesmo que fosse com seu pequeno hobby esquisito. Até onde ele sabia, hoje em dia, todo mundo era viciado em uma esquisitice ou outra e ele não havia nada de errado com isso.
Pague suas contas e cuide da sua própria vida – a mãe sempre ensinara.
Para Denis continuaria bem, contanto que ela continuasse sendo carinhosa e transando gostoso como sempre fazia.
               Mas agora ela estava morta. Dilacerada. E tudo o que Denis conseguia pensar era que, apesar de quarentona, a escritora ainda dava um caldo. Ele provavelmente teria que compensar Sofia por aquilo também. Só não sabia como.
               Será que aquele estacionamento coberto não terminava nunca?
***      ***
               Todos os anos os fãs do seriado “Vizinhança dos mortos” se reúnem para celebrar sua grande contribuição para a televisão e lamentar seu fim prematuro. Muitos deles acham que aqueles caras tinham sido geniais e corajosos ao produzir uma série como aquela vinte anos antes de Lost e todos aqueles seriados de vampiro. Pena que a audiência não tinha entendido a piada, e a série acabou na primeira temporada.
               Um crítico de TV uma vez descreveu o programa como “uma série que ninguém viu baseada num livro que ninguém leu”. Mas ele acabou pagando a língua, pois com o passar do tempo isso mudou.
De uma forma como nunca tinha acontecido antes, a série virou um fenômeno de público quase vinte anos após seu cancelamento. Tudo isso porque algum aficionado gravou na época e depois disponibilizou os episódios na internet. Foi então, que por uma dessas mágicas inexplicáveis, aquilo que incialmente era cult, passou a ser uma mania nacional.  De olho nos possíveis lucros, a emissora remasterizou os episódios e passou a exibi-los em horário nobre para vigia noturno, alcançando um enorme sucesso. Há quem diga que estudam um remake, uma continuação, ou uma versão para o cinema e que na convenção desse ano iriam anunciar isso.
Nos seus vinte e quatro adorados episódios, um grupo de vizinhos fica isolado em um condomínio de luxo, totalmente tomado por zumbis. Não é explicado em momento nenhum de onde eles vieram, mas fica subentendido algumas vezes que são produtos de experiências do governo. Na wikipedia você ler uma centena de teorias diferentes, cada uma mais absurda que a outra.
A ironia é que um dos moradores deste condomínio é um famoso general que conduz experimentos genéticos, mas que havia se aposentado quando um deles deu errado e matou sua única filha. Agora, ele tentava ajudar sua netinha e seus antigos vizinhos a sair do condomínio e sobreviver às criaturas, que ficavam cada vez mais famintas a cada episódio.
Não sei pelo fato de não ter nenhum mocinho apaixonado ou qualquer personagem carismático – para os padrões daquela época, claro -  a audiência que havia começado boa, foi despencando a cada semana. As vendas do livro também não iam nada bem.
Desesperados, os produtores tentaram levantar a audiência da série, cada vez mais cambaleante, com um episódio em que o condomínio recebe a visita de uma dupla de alienígenas que pode ter sido a responsável pelo surgimento dos zumbis. Ao final, eles acabam devorados antes de revelar a verdade, mas pelo menos os sobreviventes descobrem que poderiam espantar os zumbis com fogo, o que provoca uma mudança no tom derrotista da série – o que não adiantou muita coisa, já série foi cancelada dois episódios depois.
Seja como for, este se tornou um dos episódios preferidos do fãs, já que foi escrito pela própria Samantha Knight, e eles  o viram e reviram com o passar dos anos em busca mensagens subliminares e pistas que pudessem explicar o que fazia os mortos caminharem e morderem.
***      ***
               Dentre todas as atividades realizadas na convenção anual, uma das mais apreciadas pelos fãs era os cosplays. Dulce ficava enojava quando via aquele bando de gente fantasiar de mortos-vivos sair caminhando pelos corredores do shopping center assustando os fregueses. Em alguns anos eles não se contentava com isso e resolviam sair algumas ruas da redondeza se a chuva não viesse e lavasse todo aquele amido de milho e sangue de mentira.
               É claro que todo ano Dulce torcia para que acontecesse. Porque aquelas pessoas imbecis eram zumbis de verdade. Porque elas acabavam com a credibilidade do programa. E com isso, liquidavam com qualquer chance que ela tivesse de parecer uma atriz séria.
               Todos os anos, Dulce dizia a si mesma que não compareceria mais à convenção, por mais que, no fundo, apreciasse muito todo aquele assédio. Mas ela acabava indo, porque havia contas a pagar e idiotas com dinheiro. Todos os anos ela se pegava torcendo para que alguma coisa realmente nova acontecesse. Onde é que estavam os terroristas e bandidos quando se precisava deles?
               O que aconteceu não naquele ano não foi um atentado terrorista ou mesmo um roubo com reféns. Naquele ano, cerca de uma dúzia de convidados estranhos resolveram aparecer para abrilhantar ainda mais a festa.
Houve quem ficasse extasiado com suas maquiagens extremamente realistas. Também houve que pirasse com sua técnica de atuação, já que eles grunhiam e mordiam as pessoas que encontravam pelo caminho como se fossem legítimos zumbis. E eram, embora ninguém tivesse percebido isso no começo,  mesmo que não raramente eles dilacerassem uma pessoa ou outra. Todo mundo achava que aquilo era parte do show e que se a emissora gastara tanto dinheiro era porque ia anunciar mesmo o filme,  ou melhor ainda, uma trilogia. Dulce torcia para que fossem manter o elenco original, ou mesmo que pudesse fazer uma ponta, pois não estava disposta a abrir mão do seu dinheirinho anual garantido para alguma adolescente de expressão abobalhada.
               - Tem gente que não sabe a hora de parar –  Dulce disse, enquanto sacava o spray de pimenta da bolsa e tentava usá-lo contra um dos recém-chegados. O maldito tinha tentado mordê-la e ela não gostou nem um pouco daquilo. O spray não fez nenhum efeito e ela teve que correr. E os críticos ainda a chamavam de canastrona.... Que raio de atuação era aquele? Stanislavski provavelmente teria convulsões no túmulo, se soubesse daquilo.  
               E pensar que depois anos de teatro e de uma carreira sólida em novelas, ela acabara estigmatizada por uma personagem a quem os fãs chamavam carinhosamente de “A frígida fascinante”. Fascinante, o caralho!
A ficha demorou a cair. Mas quando um pedaço do braço de um dos colegas de casting voou nas suas costas, ela caiu pra valer. Quando fez a conexão, ao menos na mente de Dulce, aquilo fez um barulhão danado. Parecia uma explosão nuclear. Eles pelo menos tinham tido o bom senso de devorar primeiro Miguel Fagundes, o protagonista do seriado. Aquele sim era canastrão. Mas ninguém percebia aquilo. Será que estavam hipnotizados pelo sorriso branco de comercial de creme dental dele? Ou simplesmente não prestavam atenção. E aquele escroto ainda ficava com as melhores falas e tinha mais tempo em cena. Dulce torcia para que no inferno houvesse câmeras, pra pegar o melhor ângulo dele, se é que isso existia.
               Aqueles zumbis não eram lentos, nem muito menos fracos. Se todos aqueles teóricos de olhos esbugalhados e ar amalucado que ela era obrigada a aturar naquela época do ano estavam certos e haviam lhes restado apenas os instintos mais básicos, eles haviam se tornado tão perigosos quanto animais selvagens. O movimento deles lembrava a Dulce aqueles programas do National Geographic sobre guepardos e panteras. Pela primeira vez em anos ela sentiu medo de outra coisa que não fosse cair no ostracionismo ou mesmo surtar de vez enquanto assinava uma foto sua como Frida pela milésima vez, escutando os mesmos comentários de sempre, sobre como a sua personagem era tão legal.
               Se aquilo fosse um filme, Dulce podia afirmar com certeza que era do tipo mal escrito. O maldito roteirista não tinha dado tempo para audiência processar a supressão da descrença. Era preciso pelo menos quinze minutos para apresentar os personagens e a situação. Mas não! Eram só dentes e garras o tempo todo. Que nem aqueles filmes sádicos sem história nenhuma.
               O que Dulce não sabia era que na vida real, quando algo realmente ruim,  a plateia não tem tempo para suprimir sua descrença. Você simplesmente corre ou dança, baby.    Quando se encolheu debaixo do balcão de uma loja de cosméticos ela já estava toda rasgada e arranhada. Mas o cabelo totalmente continuava impecavelmente penteando, como numa daquelas produções trash, sem o menor senso de continuidade. O que todos aqueles fãs cretinos diriam se soubessem que era uma peruca? Dulce não sabia. Mas apostava que eles iam gostar pra caramba do contraste que o sangue criava no terninho totalmente branco.
***      ***
Há exatos seis meses, Samantha Knight havia terminado seu casamento sólido de quinze anos porque o marido insinuara, meio que por brincadeira, que ela era uma escritora de um sucesso só.
Seu nome verdadeiro era Dóris da Silva, mas ela adotou a alcunha de Samantha Knight para dar um ar mais internacional à sua obra. No começo, ela passou a assinar Samantha King, mas descobriu que já havia um esquisitão americano com este sobrenome então resolveu mudar para Queen, que era o nome de uma banda que ela ouvia um bocado quando queria curtir um barato com o namorado. Infelizmente, durante uma visita a uma livraria, descobriu que este sobrenome também já era usado por dois primos escritores de mistério. No fim, Dóris teve que se contentar com uma peça de xadrez de patente menor.
Ela namorava Richard, um renomado produtor de TV, quando ele percebeu que estava numa grande encrenca: o programa humorístico que ele havia criado para as noites de terça-feira ia ser cancelado e ele não tinha absolutamente nada para pôr no lugar. E o pior era que ele e os sócios não tinham a menor ideia que que tipo de atração iriam criar, já que haviam gastado suas melhores ideias na sitcom abrasileirada.
- Pois é, mesmo os macacos velhos de vez em quando apostam no cavalo errado – um dos personagens de “Vizinhança dos mortos costumava dizer” e Richard tonto como era, não tinha percebido que aquilo era uma alfinetada que a namorada havia colocado especialmente para ele. Aliás, ele nunca percebia nenhuma delas, o que fez com que Samantha fosse desgostando cada vez mais dele.
Um dia, depois de um jantar com os amigos, regado a muita mescalina, ele sugeriu, meio que por brincadeira: “Porque não fazemos um seriado baseado no livro da Samantha?”.
Todos acharam uma ótima ideia.
Ela ficou ofendida, porque em sua opinião, literatura séria e programas baratos de televisão não tinham nada em comum. Mas não disse nada, porque achou que eles jamais se lembrariam de nada daquilo no dia seguinte.
Mas eles lembraram.
Os três homens estavam deitados nas espreguiçadeiras de madeira trançada a beira da piscina tomando mais cerveja e contando mentiras sobre suas vidas sexuais fulgurantes quando um assistente de produção recém-contratado que ainda nem sabia fazer a barba perguntou de forma casual:
- E ai? Vai mesmo fazer o seriado?
- É claro que vou - Richard respondeu. O resto é história.
Uma história cheia de maquiagens de segunda que derretiam rápido embaixo dos refletores e de críticas sobre a falta de desenvolvimento dos os personagens.
Durante anos ela tentou publicas novas histórias com temáticas diferentes – escreveu até um romance de época – mas tudo o que conseguiu foram súplicas dos editores para que parasse de inventar moda e escrevesse novas continuações de “Vizinhança dos mortos”.
Depois que do fracasso de público e crítica de “Universo dos mortos” no ano passado ela havia jogado a toalha  e começava a achar a dosagem dos antidepressivos cada vez mais ineficaz.
Durante a carnificina, tudo que ela queria era um copo de vodca em que pudesse jogar dez ou doze Zolofts. Aquilo sim a faria feliz. Se não a fizesse, faria com que esquecesse a coitada da loirinha. A pobre que havia se jogado na sua frente para impedir o zumbi de machuca-la. Porque ela era importante demais, para ser envolvida numa brincadeira imbecil daquela.
***      ***
Chris Cardoso nunca tinha encarado “Vizinhança dos mortos” como um mero seriado. Para ele, era tipo uma profecia ou coisa assim. Eles tinham mostrado as chamadas por vídeo em plenos anos 1970 e hoje em dia qualquer moleque com um telefone podia fazer aquilo. Também haviam falado sobre o fim da guerra fria e também tinham acertado. Então também era provável que acertassem sobre todo o resto.
Ele achava que aquela mulher, Knight era uma maria-ruela qualquer sem qualquer noção, mas mesmo assim ele a respeitava, porque sabia que  todos aqueles caras fodões da bíblia tinham sido zé-manés nos tempos deles.
Chris foi o primeiro a perceber o que realmente estava acontecendo. Foi sua a primeira arma a disparar um tiro na testa de um daqueles malditos. Foi com um urro de satisfação que ele verificou que a coisa usava um jaleco branco. No fundo Chris sempre soubera que um dia aqueles malditos cientistas fuçadores iam foder com tudo. Quando leu na internet há duas semanas sobre uma nova droga que regenerava células do cérebro mortas ele soube que ia ter que começara a sair de casa com armas melhores.
No fundo, ele sempre acreditou que a humanidade estava destinada a fazer algo realmente idiota e se preparou desde criança.
De vez em quando ele sonha com o pai. Ele era pastor de uma pequena igreja no subúrbio e ficou muito magoado quando o filho decidiu seguir carreira na polícia. Nestes sonhos, ele via o pai como um zumbi, correndo para devorá-lo. Mas Chris não titubeava. Não importava que fosse seu pai, ele apertava o gatilho. Porque fora para aquilo que ele nascera e Chris sabia disso.
Ele apenas torcia secretamente para nunca ter um sonho daqueles com versões zumbi de Gaby e Tamara. Porque sabia que aquilo seria demais. Pra tudo havia limite. Até mesmo para um cara como ele.
Quando viu dois zumbis devorando uma menininha e sua mãe ele achou que havia chegado a hora. Ele finalmente ia surtar depois de todos aqueles anos usando seu lunático interior a seu favor. Ele finalmente ia sair e que Deus tivesse dó de quem estivesse por perto. Mas ele não saiu. Tudo o que ele lhe disse foi: - Salva elas. – A voz estava calma, sem nenhum vestígio de desespero ou loucura. E Chris fez. Para cada uma, uma bala na testa. E mais uma para cada um dos bichos. Para cada um dos malditos bichos asquerosos, filhos de uma....
Então ele vira o fanboy. E o salvara. Como Frank, o protagonista do seriado, havia salvado Jessica uma vez. As balas tinham acabado e não havia tempo de recarregar. Então Chris deixou que as armas deslizassem para o chão e pegou as facas que estava uma em cada lado do cinto. Ele se deixou deslizar pelo chão liso, como se estivesse num tipo de tobogã. E para o azar das coisas, Chris era ambidestro.

***      ***
               Denis sempre tinha ouvido falar que Dulce Salgado não interpretava quando fazia o papel de Frida. Que quando as câmeras eram ligadas,  ela simplesmente  era ela mesma, dizendo as falas da oportunista e sarcástica Frida, a quem sua falecida namorada adorava de paixão. Ele já tinha tido a oportunidade de vê-la várias vezes nos bastidores acreditava piamente que aquele era mais um daqueles casos em que a arte imita a vida. Por isso não foi nenhuma surpresa a forma como ele e Samantha a encontraram.
               No meio exato de um dos corredores largos do shopping center, havia um quiosque do Mcdonalds, onde, em dias normais, crianças e adultos faziam fila para comprar sorvetes e outras pequenezas. Mas naquela tarde fria de outubro, os convidados especiais já haviam passado por lá para um lanchinho, e tudo o que restava era um monte de pedaços de cadáver semidevorados em ensanguentados.  
               O gerente do Macdonald havia sido devorado apenas da cintura para cima, e sem nenhum pudor,  Dulce havia se abaixado e pegado a chave que abria o caixa do pequeno quiosque. O que encontrou lá dentro fez seus olhos negros brilharem e ela começou a guardar o dinheiro no bolso interno do blazer quando Samantha e Denis chegaram esbaforidos. Ele não pôde acreditar na cena que via. Era irreal demais para ser verdade.
               Samantha Knight não se admirou tanto. Tudo o que disse foi:
               - É a primeira vez que vejo um urubu todo branco.
               - Eles são comuns na Argentina – Dulce sorriu e Denis percebeu que seus dentes estavam ficando gastos. Por causa da idade. Ou do cigarro, sei lá. – Tudo bem com você Samantha? Quem é o gato? Namorado novo?
               - Um amigo. – Knight disse.
               Denis não conseguia esquecer o jeito como ela tinha se esgueirado de fininho enquanto os colegas de elenco eram devorados no palco principal. Saídas estratégicas pela esquerda sempre tinham sido a sua especialidade. Ele estava pensando no quanto detestava aquela mulher quando ouviram um barulho vindo de um corredor próximo e se deparam com Chris abrindo fogo contra três zumbis que tentavam pegá-lo.
               - Vão ficar só admirando ou vão fazer alguma coisa, princesas? – o homem perguntou, pegando um pente de balas num dos bolsos de sua calça cargo fora de moda. Denis nunca tinha visto ninguém recarregar uma arma tão rápido. Mais uma vez Dulce tentou seu truque de desaparecimento, mas ele a agarrou pelo braço.
               - Dessa vez não moça. – Com a outra  mão ele agarrou um pedaço de madeira, provavelmente de alguma decoração cara de alguma loja grã-fina cuja vitrine fora destroçada pelo arremesso de um corpo zumbi contra ela e a cravou na cabeça de uma das coisas que tentava matar Chris.
               Nesse meio tempo o ariano conseguiu liquidar com as outras duas, usando apenas uma arma.
               Samantha se encolheu de medo em um canto. Provavelmente tinha entrado em parafuso. Denis sempre soube que isso acontecia uma hora ou outra com quem lê e escreve demais.
               - Ei, escritora! – Chris gritou. – Vamos dar o fora daqui! – E ela pareceu acordar, a descer do planeta sei lá o que em que estivera naqueles poucos segundos e começou a se mover, o que fez com que Denis suspirasse aliviado. Já tinha visto gente demais morrendo naquele dia. Além do mais, Sofia teria ficado péssima se Samantha morresse.
***      ***
               Um dia, quando o seriado ainda estava na metade da temporada, Samantha e o namorado produtor tiveram um susto e tanto. Quando chegaram para trabalhar, havia um carro do exército esperando por eles. Alguém queria conversar com eles sobre a série. Ainda estávamos em pleno período de ditadura e não havia nem sinal de “Diretas já” no horizonte, o que fez com que o sangue dela gelasse enquanto se sentava no banco do passageiro.
Andaram cerca de uma hora por lugares da cidade que ela nem sabia que existiam, até chegarem a uma área afastada onde ficava o escritório do mandachuva que queria conversar com eles. Samantha sempre ouvira histórias – rumores, sussurros ou seja lá o que – sobre como algumas dessas “conversas” com gente do exército terminavam. Isso sem falar num certo apreço pela dramaticidade que aquele povo tinha. Não pela dramaticidade elegante, do tipo MOLIÈRE estava mais para novela das oito.
Ela pôde comprovar isto quando entrou na sala totalmente às escuras em que o brigadeiro assistia a uma cópia do episódio que iria ao ar na próxima semana.
- Isso é algum tipo de alegoria? – ele se perguntou sem sequer se virar.  Não se apresentou ou deu bom dia. Sua farda e suas condecorações diziam tudo que eles precisavam saber. Muito menos de levantou da cadeira.
- Não estou entendendo, senhor –  O namorado disse, meio que gaguejando.
O homem se levantou e chegou bem perto do rosto dele:
- Não se faça de engraçadinho, moço. – deu uma pausa e olhou pra Samantha – Isso é algum tipo de alegoria? Esses zumbis comedores de gente somos nós do exército, sua hippie duma figa? Porque os nossos especialistas estão dizendo que são.
Ela usava uma roupa de grife e brincos caríssimos, mas por algum motivo ele achava que eu era hippie.... Vai entender. Deu de ombros e falou com o máximo de coragem que pôde reunir:
- São só mortos comedores de gente – disse. – É só televisão. Puro escapismo, brigadeiro. Está achando que somos quem, Caetano Veloso?

Ele parou por um tempo. Ficou olhando.
- Ele ao menos escrevia coisas inteligentes. Subversivas, mas inteligentes.
Samantha pôde ver a mágoa nos olhos de Richard. Ele sempre se achara um intelectual incompreendido. E sempre ficava magoado quando ouvia críticas, principalmente quanto ao seu talento. Mas ele não disse nada.
O homem então se virou para ele:
- Eu não vou detê-los, ainda. Mas se eu sequer sonhar que estão usando esse programeco para criticar as coisas boas que fazemos por esse pais, mando os dois para cadeia tão rápido quanto vocês conseguem dizer Tropicália. E todo mundo que trabalhar nessa joça. – ele se virou para o homem que nos trouxera – Leve esses malditos hippies daqui!
Richard e ela não trocaram nem uma palavra enquanto o carro os levava de volta para o estúdio. Assim que ficaram a sós, ele perguntou:
- Me fala verdade. Era mesmo uma alegoria? Por favor, diz pra mim que não era...
***      ***

               As primeiras vitimas dos zumbis estavam em um ônibus de excursão. O motorista manobrava por uma rua próxima da entrada do shopping center onde ficava o centro de convenções – um dos maiores da América Latina, senhoras e senhores – quando alguém os avistou no acostamento.
               Um dos jovens sempre ávidos por emoção jogou os restos de um pacote de doritos em um deles. A coisa apenas se virou e ficou olhando para ele com seus olhos mortos,  enquanto todos comentavam o quanto aquela convenção ia ser legal. Já fazia alguns anos que elas haviam caído na mesmice, mas ao ver  todas aquelas pessoas caracterizadas de um jeito tão realista, haviam descoberto que o dinheiro e tempo investidos em organizar a excursão valeriam a pena
               Por pouco Maick não viera. Ele nem era tão fã assim e os amigos haviam enchido tanto o saco que ele resolvera ir com eles, para ajudar a completar o número mínimo de pessoas no ônibus. Mais tarde – cerca de um minuto e meio após o ônibus parar e escancarar suas portas para que algumas pessoas descessem para tira fotos com os zumbis e esticar um pouco as pernas – ele desejaria ter ficado em casa, igualzinho ao fanboy, a quem jamais iria conhecer, pois estaria morto em menos de meia hora.
               Os zumbis não estavam interessados em tirar fotos ou em dar autógrafos. Estavam famintos e as pessoas dentro do ônibus ficaram chocadas quando a primeira mulher foi devorada sem cerimônia, bem diante dos seus olhos. Tentaram fechar as portas, mas não adiantou, por que as coisas eram fortes, e elas as forçaram até abrir. Uma delas se jogou contra uma das janelas enquanto alguém gritava para que o motorista desse a partida. Mas ele não conseguiu, porque estava paralisados. A janela não se quebrou. Foi então que a coisa arremeteu de novo. E de novo. Estava toda quebrada por causa dos impactos, mas eles sabiam que não iria parar. Quando finalmente o pé caiu sobre o acelerador com força, já era tarde, porque a porta foi aberta violentamente e dois zumbis já estavam lá dentro. O motorista foi um dos primeiros a ser devorado, o que fez com que o ônibus se descontrolasse e capotasse.
               Maick tentou se segurar como pôde, mas acabou batendo a cabeça, o que salvou sua vida, por um tempo. Quando despertou meio grogue e viu uma mulher horrível mordendo o braço de seu primo caído na janela perto dele, ele primeiro não entendeu o que que estava acontecendo, mas quando sentiu uma mordida no seu calcanhar direito, ele entendeu. E tentou correr, mas o ônibus estava virado, então o máximo que ele conseguiu foi dar um chute com a perna ensanguentada na cara da coisa que o mordera. Acima dele, viu um faixo de lux forte entrando. Alguém conseguira escalar os bancos do ônibus e puxara a alavanca que fazia com que as janelas se soltasse, criando uma saída de emergência.
               Maick escalou para tentar chegar lá, enquanto era mordido e arranhado. Um flerte de sangue sujou sua camiseta branca recém-comprada. E por pouco ele quase não conseguiu sair.
               Sentiu uma mão puxando-o. Era o dono da agencia que havia organizado uma excursão.  Era um quarentão boa-gente para quem tudo estava sempre bom. Ele ainda ajudava Maick a ficar em pé quando o garoto viu um vulto saltando pela janela. Logo depois seu salvador caia, com uma coisa horrenda e ensanguentada em cima dele.
               Maick não perdeu tempo. Não era nenhum atleta, mas de vez em quando gostava de andar de skate, o que fazia com que tivesse uma noção melhor de equilíbrio em terrenos íngremes. Enquanto a coisa terminava de devorar o homem, ele correu e saltou de cima do ônibus, caindo sobre o pé esquerdo, que com certeza de se quebrara ao receber o impacto.
               Mas ele não pensou naquilo. Entrou no shopping center correndo, sem pensar para onde ia, correndo para o centro de convenções, embora ficasse logo na entrada, parecia ficar a um milhão de quilômetro de distância de onde ele estava. Ele esbarrou em algumas pessoas e gritou coisas incompreensíveis quando uma delas chamou o segurança que cochilava em um canto.  Ele foi ao encalço de Maick e já estava quase alcançando quando o adolescente escancarou as elegantes portas de madeira que davam acesso ao salão principal.
               Atrás dele, o responsável por recolher os ingressos gritou:
               - Ei, você não pode entrar ai sem me dar o seu ingresso!
               Samantha Knight estava fazendo seu discurso quando o garoto esfarrapado entrou no salão silencioso. O som de surpresa que as pessoas da plateia fizeram a fez lembrar-se de um daqueles animes que que o filho caçula assistia compulsivamente, episódio após episódio, como se o mundo fosse acabar na meia hora seguinte. Era um grande “ooooooooooooooooooooooooooh”.
               Ao lado da tribuna, os veteranos do elenco principal estavam sentados em uma grande mesa de honra. Um deles cutucou o outro e disse: “Não falei que eles tinham preparado algo especial esse ano? Afinal vinte e um anos são vinte e um anos.....
               - Eles estão aqui ! – Maick gritou. – Os zumbis estão aqui! E vão devora todo mundo!
               A plateia bateu palmas, embevecida.
               Foi então que o primeiro pedaço do bilheteiro caiu no tapete vermelho que levava ao palco, indo pousar logo atrás de Maick. E todos puderam ouvir o grito do bilheteiro, o que levou a mais uma rodada de aplausos.
               Maick se virou a tempo de encarar a morte. Ela foi rápida. Mas não foi indolor.
               O resto, como se diz, é história.
***      ***
Há alguns anos Chris decidiu inexplicavelmente que precisava de uma daquelas vans grandes, que servem para carregar toda a família. Não que ele tivesse muita, já que a há anos os pais não falavam com eles e já fazia algum tempo que a mulher e a filha tinham ido pro saco.
Ele colocou vidro preto em todas as janelas, embora soubesse que era contra a lei e removeu todos os banco, com exceção da primeira fileira, para que sua verdadeira família pudesse viajar. E agora os sete panacas estavam olhando para ela, embasbacados. 
Ver um monte de armas é bonito quando elas estão numa cena do Exterminador do Futuro parte trinta, mas quando você vê o reflexo da luz sobre elas e sente o cheiro da pólvora a coisa é meio chocante – Chris pensou, se enfiava no meio deles para pegar uma escopeta. Ele também havia experimentado aquela sensação quando as vira assim, todas empilhadas.
Na van, Chris tinha armas de todos os modelos e calibres imagináveis. E um bocado de munição. No fundo de uma sacola de couro, ele também tinha uns cartuchos de sal. Vai que aquele outro seriado de que ele gostava estava certo também....
***      ***
               O fanboy tinha escolhido um lança chamas ao invés de uma arma, pois sua experiência televisiva dizia que aquela era a arma mais eficaz contra um zumbi. Não importava que o combustível pudesse acabar rápido e aqueles tanques fossem incrivelmente pesados.
               - Ei, Sigourney Weaver – Chris disse, quando chegaram a uma das pilastras do grande estacionamento coberto – fica esperto. Tem algo vindo ai.
               Foi então que eles viram o zumbi se aproximando. Mas aquele era lento. Provavelmente porque estava com a perna machucada. Usava uma camisa do Linkin Park toda rasgada, o que fez com que o fanboy simpatizasse um pouquinho com ele. Mas a simpatia durou pouco, porque ele se lembrou de aquilo não era uma pessoa. Nem mesmo um animal. Era uma coisa imbecil que só sabia comer e comer. Um troço horrível que não acrescentava muita coisa ao mundo, igual ao pai dele.
               Ele não pensou muito quando ligou o lança-chamas e apontou para a coisa. A roupa dela já estava chamuscava quando ele percebeu a burrada que tinha feito. Porque a coisa falou. E elas não falavam.
               - Ei, qual é? Eu não sou um deles! Pára! – ouviram a voz sair nítida. Era só um  cosplay. Tão bem feito que dava pra achar que era realmente um zumbi de verdade. E era tarde demais para salvá-lo porque o fanboy tinha colocado o lança chamas na intensidade máxima. Denis até que tentou parar as chamas fazendo com que ele rolasse ao redor do próprio corpo, mas não deu certo.
               Graças a Deus não houve frases prontas do tipo “não foi sua culpa” e nem nada do tipo. O fanboy começou a achar que os sobreviventes eram tipo, o clube dos filhos da puta, mas todas essas preocupações foram varridas da sua mente quando os zumbis de verdade chegaram. O lança chamas não adiantou de nada pois mesmo incendiados eles continuavam vindo morder e só paravam quando já estavam queimados demais, o que parecia demorar, tipo um século, e dava tempo para fazer muitos estragos.
               Assim que pôde, o fanboy largou aquele trambolho no chão e pediu uma pistola de mão para Chris. Ele não sabia atirar, mas não havia melhor mestra que a necessidade?
               Ele teve muito tempo para praticar, pois demoraram quase duas horas para sair do estacionamento.
***      ***
Mal eles sentiram a luz do sol batendo em seus rostos, eles viram os rastros de destruição. Em algum lugar ao norte da cidade,  havia fumaça. Negra e espessa. Carros de polícia iam e vinham, mas tudo que os ouvidos de Denis captavam eram suas sirenes. Em algum lugar uma criança gritava. Em outro, era um homem. Um carro havia batido na esquina de cima e – cara! – eles tinham conseguido fazer efeitos especiais maravilhosos.
Foi então que Denis percebeu que não estavam nos anos 1970 na porta de um condomínio semidemolido e sim nos dias de hoje. E que o cheiro de carne queimada que vinha do carro não era efeito especial nenhum. Não estavam no último episódio do seriado, quando eles finalmente conseguem alcançar a liberdade, apenas para descobrir que o caos é generalizado. Embora fosse igualzinho. Quase idêntico, eu diria.
Ele já tinha visto o episódio uma centena de vezes com Sofia. Em português, em espanhol, em baixa e alta resolução. Numa pequena janelinha no computador. No grande telão do centro de convenções. Com os comentários dos idealizadores. Parecia que ele estava ouvindo a voz de Samantha Knight.
- É global – ele realmente estava ouvindo a voz meio anasalada dela. A costela quebrada fazia com que soasse ainda mais estranha. Embora ela estivesse do lado dele,  a voz parecia vir de outro planeta.
- E vocês esperavam o quê? – Chris falou.
Quando aquilo tudo, quando o quadro geral se formou na sua mente, o fanboy disse:
- Cara, isso é genérico demais. – ele quase chorava como tinha feito na estreia do episódio I de Star Wars. Denis não entendia o que ele quis dizer, mas captava a frustração na sua voz.
- E não é isso que a vida real é? – Knight soltou quase sem perceber. Parecia que estava no meio de um seminário de Literatura e não a beira do penhasco – Um monte de eventos aleatórios e totalmente genéricos? Se fossem fazer o filme da vida de uma pessoa como ela realmente é, seria o pior filme do mundo...
- Não é de admirar que as pessoas não queiram comprar seus livros. – Dulce disse sarcasticamente. De todos ali era a que mais esperava um final mais do tipo “E todos viveram felizes para sempre” e a que mais se decepcionou, embora não deixasse transparecer.
Mas Denis não prestava atenção naquilo. Tudo o que conseguia pensar era na expressão do personagem XXX na última cena, quando ele contemplava aquele quadro horroroso. Tudo o que Denis conseguia ver na sua mente eram seus olhos azuis. Seus vazios olhos azuis. Fitando o nada. Era nessa hora que o telespectador entendia que a esperança saíra para comprar cigarros e nunca mais voltaria. Junto com a audiência, sei lá.
Os olhos de Denis eram de outra cor, mas o vazio que víamos neles era igual.