VIZINHANÇA
DOS
MORTOS
(primeiro
tratamento)
por Reginaldo Costa
- Me fala uma coisa, florzinha – Chris falou,
ajudando-o a levantar.
-
Oi? – o Fanboy ainda parecia chocado. Há menos de um minuto ele estava
barganhando com uma garota gorda por um álbum de figurinhas. Aquele era um dos
únicos itens de memorablia que haviam saído na época da exibição original de
“Vizinhança”. E estava completo, o que era mais raro.
Foi
então que as duas coisas chegaram sorrateiramente e devoraram a gorda,
gananciosa demais para seu próprio bem. Em poucos segundos, ele estava cercado.
E se não fosse por aquele homem estranho e suas facas, ele teria se juntado a
ela.
-
Quantos filmes de zumbi você já viu? – De pé, o mundo começava a entrar em foco
novamente.
-
Sei lá – o fanboy falou, tentando limpar o sangue. – Trocentos.
-
E mesmo assim não reconheceu um de verdade, mesmo que ele estivesse fungando no
seu cangote.
Os
olhos do fanboy percorreram o ambiente rapidamente. Aquilo não parecia mais o
pequeno shopping Center da cidade. Parecia uma zona de guerra. E ali, próximo a
uma poça de sangue, ele viu o álbum, intacto. Havia caído no meio da confusão.
É impressionante como nos apegamos a ninharias, mesmo que o mundo esteja
desmoronando.
-
Larga isso ai – Chris bateu na mão dele e a raridade mergulhou na poça de
sangue.
-
Qual é seu problema? – o fanboy gritou. Mas não era por causa da dor que o tapa
provocara. Também não era por causa dos arranhões que conseguira tentando fugir
das coisas. O que machucava realmente era saber que o fato de ainda estar vivo
era por conta de um cara horrível daqueles.
Enquanto
caminhavam, o fanboy notou a suástica
tatuada no braço dele através de um rasgo na roupa camuflada e não se
surpreendeu. Tipos como aquele sempre tinham suástica. E também sempre vestiam
roupas camufladas. E no fundinho, o fanboy também não gostou, mas tinha que
admitir que aquele fosse exatamente o tipo de pessoa de quem se precisava se o
apocalipse zumbi começasse, o que parecia o caso.
O
fanboy estava acostumado aos paradoxos, ainda mais depois de todos aqueles anos
desfrutando dos prazeres culpados aqueles filmes e seriados de quem somente ele
e a mãe do diretor gostavam podiam proporcionar. Embora seu cérebro dissesse que Chris era o
cara certo para salvar sua pele, seu coração dizia para ficar longe dele,
porque ele era louco.
Eles
se juntaram a outras pessoas, amuadas dentro de uma loja esportiva. Pareciam
ser os únicos sobreviventes do massacre. O fanboy começou a observá-los
detalhadamente, como se estivesse assistindo a um novo piloto e avaliando as
possibilidades. Lado a lado, como se fossem um corredor polonês estavam:
·
O frentista
desconhecido com cara de galã de novela.
·
Dulce
Salgado: uma das atrizes do seriado. Uma mulher estranha de ar andrógena com
cabelo branco.
·
Samantha
Knight: Uma loura de meia idade e óculos de fundo de garrafa. Ela tinha escrito
o livro que servira de base para o seriado.
A voz dela era estridente, principalmente quando falava ao microfone.
Mas o fanboy sempre a ouvia extasiado, porque ela era uma fonte de boas ideias,
embora poucos reconhecessem isso.
·
E o louco, é
claro. Não era tipo, uma regra, que todo filme de zumbi devia ter um cara daqueles?
Afinal, alguém tinha que atirar nas coisas enquanto as calças das pessoas
normais ficavam mais pesadas.
Mas
aquilo não era um filme. Não era mais uma daquelas coisas acéfalas que o fanboy
detestava, destilando a síndrome de Frankenstein em cada fala tosca, em cada
cena mal resolvida. Era vida real, por mais insana que pudesse parecer. Tudo o
que o fanboy queria era descobrir que tudo aquilo não passava de um delírio e
que ele era o sonho de uma garotinha numa cela acolchoada. Mas não era.
-
Vão ficar aqui me olhando ou podemos sair daqui, meninas? – Chris perguntou. O
fanboy sabia que este era seu nome, porque estava escrito no bolso dele.
-
Pra onde vamos? – o fanboy perguntou. E os outros o olharam com certo respeito.
Ele era do tipo que vestia a camisa e sabia os episódios de cor, a ponto de
citá-los no trabalho. Ninguém nunca havia olhado para ele daquele jeito, o que
fez com que se sentisse um pouquinho melhor. Mas só um pouquinho.
-
Pro estacionamento – Chris falou calmamente.
-
Está louco? – O frentista falou. Pelo jeito ele também tinha visto um monte de
filmes de zumbi, visto que falou em seguida. – Temos que ir para um espaço
aberto. O estacionamento é o pior lugar para se ir numa situação dessas.
-
Pois é, doce de coco – Chris falou. Ele também não gostava do frentista. O fanboy
conhecia vem o tipo. Gente como Chris não gostava e não respeitava ninguém.
Isso fez com que o que fez com que o fanboy gostasse mais do homem que ele logo
descobriria se chamar Denis de imediato. – só que eu estou quase se munição. E
todas as saídas estão cercadas. No meu carro eu tenho outras armas. A gente
pode usar elas para matar o resto das coisas.
Mesmo
achando que aquilo era uma péssima ideia, eles decidiram seguir Chris. Deixaram
o corpo do casal zumbi para trás e se dirigiram às escadas rolantes. Por sorte
a energia ainda não começara a bruxulear e dar um ar ainda mais clichê àquilo
tudo. Graças a deus pelos pequenos favores... Se é que aquilo era um favor, já
que eles poderiam ver em 10D altíssima resolução quando uma daquelas coisas resolvesse
se arriscar a experimentar mais um pouco de carne humana ao molho de gengibre.
“Porque
eu tinha de sair de casa hoje? – o fanboy quando a escada chegou ao fim. A
resposta veio rápida. Porque ele era compulsivo. Porque não conseguia passar
sem todos aqueles pequenos mimos. De outra forma, como ele poderia enfrentar
aquele trabalho horrível, com todas aquelas pessoas horríveis, se ao final do
mês, não houvesse uma recompensa? O fanboy ficou pensando no que seu velho
psiquiatra diria se por acaso um zumbi invadisse seu consultório e arrancasse
um pedaço dele?
Não
houve uma resposta. Não houve a voz cálida de um narrador explicando tudo em
tom sarcástico como na série, ou pelo menos dizendo o título do episódio. E é
claro que não haveria. Nos filmes de zumbi os caras raramente se davam ao
trabalho de explicar alguma coisa. Era só atirar e correr. Porque tudo o que os
sádicos do outro lado da telinha queriam era sangue e vísceras, para aquecer
suas vidinhas mornas. Então que assim seja. Amém, baby.
***
***
Denis
sempre soube que se daria mal por causa de uma mulher. Ou por causa de várias,
como era o caso.
Não
fosse uma consciência pesada, ele poderia estar em casa, curtindo um jogo de
futebol e tomando uma cerveja bem gelada ao invés de estar correndo pelos
corredores de um shopping Center tentando escapar de gente morta que comia
gente viva.
Não
fosse a sua compulsão por trair as mulheres com quem namorava, ele não
precisaria ficar constantemente compensando-as. Mas agora Sofia estava morta e
não adiantava ficar pensando nisso.
Ah,
Sofia. Tão bonita e tão burrinha. Tão deslumbrada e tão pateta.
Denis
tinha lido em algum lugar que aquilo mais amamos um dia nos mata, mas aquilo já
era um pouco demais. Ela havia morrido por causa do seu amor incondicional a um
seriado cancelado muitos anos antes de ela nascer. Aquilo era loucura demais
para Dennis.
Ao lado dele corria a senhorita Knight. Senhorita ela havia frisado quando ele a
conhecera muitos anos atrás numa convenção igual àquela. Bom, não teve gente
comendo gente, mas você entendeu né?. Quando apertara a mão de Denis, o dedo
dela havia deslizado suavemente pela palma da mão dele. Demorada e calidamente.
“Sempre paquera os namorados de suas fãs,
senhorita Knight? – Denis teve vontade de perguntar.
“Somente quando eles são bonitões e cheiram a
gasolina, apesar de terem tomado quatro banhos antes de sair de casa – ele a
imaginou respondendo. Mas tudo não passou de uma fantasia pela qual ele teria
que compensar Sofia naquela noite. Embora ela não soubesse disso.
Denis não entendia aquela coisa de zumbi.
Para ele, ou uma coisa estava viva ou morta. Esse lance de mortos vivos era uma
coisa tão sem lógica que chegava a ser ridícula. Achava estranho uma garota
bonita como Sofia preferir passar boa parte de seu tempo cercada de gente
esquisita, como o garoto de óculos que corria à sua esquerda, mas ele não a
criticava abertamente como fazia a família dela e alguns “amigos”. Para ele, tudo o que
importava era que ela estivesse feliz, mesmo que fosse com seu pequeno hobby esquisito. Até onde ele sabia,
hoje em dia, todo mundo era viciado em uma esquisitice ou outra e ele não havia
nada de errado com isso.
Pague suas
contas e cuide da sua própria vida – a mãe
sempre ensinara.
Para Denis continuaria bem, contanto que ela
continuasse sendo carinhosa e transando gostoso como sempre fazia.
Mas
agora ela estava morta. Dilacerada. E tudo o que Denis conseguia pensar era
que, apesar de quarentona, a escritora ainda dava um caldo. Ele provavelmente
teria que compensar Sofia por aquilo também. Só não sabia como.
Será
que aquele estacionamento coberto não terminava nunca?
***
***
Todos
os anos os fãs do seriado “Vizinhança dos mortos” se reúnem para celebrar sua
grande contribuição para a televisão e lamentar seu fim prematuro. Muitos deles
acham que aqueles caras tinham sido geniais e corajosos ao produzir uma série
como aquela vinte anos antes de Lost
e todos aqueles seriados de vampiro. Pena que a audiência não tinha entendido a
piada, e a série acabou na primeira temporada.
Um
crítico de TV uma vez descreveu o programa como “uma série que ninguém viu
baseada num livro que ninguém leu”. Mas ele acabou pagando a língua, pois com o
passar do tempo isso mudou.
De uma forma como nunca tinha acontecido
antes, a série virou um fenômeno de público quase vinte anos após seu
cancelamento. Tudo isso porque algum aficionado gravou na época e depois
disponibilizou os episódios na internet. Foi então, que por uma dessas mágicas
inexplicáveis, aquilo que incialmente era cult, passou a ser uma mania
nacional. De olho nos possíveis lucros,
a emissora remasterizou os episódios e passou a exibi-los em horário nobre para
vigia noturno, alcançando um enorme sucesso. Há quem diga que estudam um
remake, uma continuação, ou uma versão para o cinema e que na convenção desse
ano iriam anunciar isso.
Nos seus vinte e quatro adorados episódios, um
grupo de vizinhos fica isolado em um condomínio de luxo, totalmente tomado por
zumbis. Não é explicado em momento nenhum de onde eles vieram, mas fica
subentendido algumas vezes que são produtos de experiências do governo. Na
wikipedia você ler uma centena de teorias diferentes, cada uma mais absurda que
a outra.
A ironia é que um dos moradores deste
condomínio é um famoso general que conduz experimentos genéticos, mas que havia
se aposentado quando um deles deu errado e matou sua única filha. Agora, ele
tentava ajudar sua netinha e seus antigos vizinhos a sair do condomínio e
sobreviver às criaturas, que ficavam cada vez mais famintas a cada episódio.
Não sei pelo fato de não ter nenhum mocinho
apaixonado ou qualquer personagem carismático – para os padrões daquela época,
claro - a audiência que havia começado
boa, foi despencando a cada semana. As vendas do livro também não iam nada bem.
Desesperados, os produtores tentaram levantar
a audiência da série, cada vez mais cambaleante, com um episódio em que o
condomínio recebe a visita de uma dupla de alienígenas que pode ter sido a
responsável pelo surgimento dos zumbis. Ao final, eles acabam devorados antes
de revelar a verdade, mas pelo menos os sobreviventes descobrem que poderiam
espantar os zumbis com fogo, o que provoca uma mudança no tom derrotista da
série – o que não adiantou muita coisa, já série foi cancelada dois episódios
depois.
Seja como for, este se tornou um dos
episódios preferidos do fãs, já que foi escrito pela própria Samantha Knight, e
eles o viram e reviram com o passar dos
anos em busca mensagens subliminares e pistas que pudessem explicar o que fazia
os mortos caminharem e morderem.
***
***
Dentre
todas as atividades realizadas na convenção anual, uma das mais apreciadas
pelos fãs era os cosplays. Dulce
ficava enojava quando via aquele bando de gente fantasiar de mortos-vivos sair
caminhando pelos corredores do shopping
center assustando os fregueses. Em
alguns anos eles não se contentava com isso e resolviam sair algumas ruas da
redondeza se a chuva não viesse e lavasse todo aquele amido de milho e sangue
de mentira.
É
claro que todo ano Dulce torcia para que acontecesse. Porque aquelas pessoas
imbecis eram zumbis de verdade. Porque elas acabavam com a credibilidade do
programa. E com isso, liquidavam com qualquer chance que ela tivesse de parecer
uma atriz séria.
Todos
os anos, Dulce dizia a si mesma que não compareceria mais à convenção, por mais
que, no fundo, apreciasse muito todo aquele assédio. Mas ela acabava indo,
porque havia contas a pagar e idiotas com dinheiro. Todos os anos ela se pegava
torcendo para que alguma coisa realmente nova acontecesse. Onde é que estavam
os terroristas e bandidos quando se precisava deles?
O
que aconteceu não naquele ano não foi um atentado terrorista ou mesmo um roubo
com reféns. Naquele ano, cerca de uma dúzia de convidados estranhos resolveram
aparecer para abrilhantar ainda mais a festa.
Houve quem ficasse extasiado com suas
maquiagens extremamente realistas. Também houve que pirasse com sua técnica de
atuação, já que eles grunhiam e mordiam as pessoas que encontravam pelo caminho
como se fossem legítimos zumbis. E
eram, embora ninguém tivesse percebido isso no começo, mesmo que não raramente eles dilacerassem uma
pessoa ou outra. Todo mundo achava que aquilo era parte do show e que se a
emissora gastara tanto dinheiro era porque ia anunciar mesmo o filme, ou melhor ainda, uma trilogia. Dulce torcia para que fossem manter o elenco original, ou
mesmo que pudesse fazer uma ponta, pois não estava disposta a abrir mão do seu
dinheirinho anual garantido para alguma adolescente de expressão abobalhada.
-
Tem gente que não sabe a hora de parar – Dulce disse, enquanto sacava o spray de pimenta da bolsa e tentava
usá-lo contra um dos recém-chegados. O maldito tinha tentado mordê-la e ela não
gostou nem um pouco daquilo. O spray não fez nenhum efeito e ela teve que
correr. E os críticos ainda a chamavam de canastrona.... Que raio de atuação
era aquele? Stanislavski provavelmente teria convulsões no túmulo, se soubesse
daquilo.
E
pensar que depois anos de teatro e de uma carreira sólida em novelas, ela
acabara estigmatizada por uma personagem a quem os fãs chamavam carinhosamente
de “A frígida fascinante”. Fascinante, o caralho!
A ficha demorou a cair. Mas quando um pedaço
do braço de um dos colegas de casting voou nas suas costas, ela caiu pra valer. Quando fez a conexão, ao
menos na mente de Dulce, aquilo fez um barulhão danado. Parecia uma explosão
nuclear. Eles pelo menos tinham tido o bom senso de devorar primeiro Miguel
Fagundes, o protagonista do seriado. Aquele sim era canastrão. Mas ninguém
percebia aquilo. Será que estavam hipnotizados pelo sorriso branco de comercial
de creme dental dele? Ou simplesmente não prestavam atenção. E aquele escroto ainda
ficava com as melhores falas e tinha mais tempo em cena. Dulce torcia para que
no inferno houvesse câmeras, pra pegar o melhor ângulo dele, se é que isso existia.
Aqueles
zumbis não eram lentos, nem muito menos fracos. Se todos aqueles teóricos de olhos
esbugalhados e ar amalucado que ela era obrigada a aturar naquela época do ano
estavam certos e haviam lhes restado apenas os instintos mais básicos, eles
haviam se tornado tão perigosos quanto animais selvagens. O movimento deles
lembrava a Dulce aqueles programas do National Geographic sobre guepardos e
panteras. Pela primeira vez em anos ela sentiu medo de outra coisa que não
fosse cair no ostracionismo ou mesmo surtar de vez enquanto assinava uma foto
sua como Frida pela milésima vez, escutando os mesmos comentários de sempre,
sobre como a sua personagem era tão legal.
Se
aquilo fosse um filme, Dulce podia afirmar com certeza que era do tipo mal
escrito. O maldito roteirista não tinha dado tempo para audiência processar a
supressão da descrença. Era preciso pelo menos quinze minutos para apresentar
os personagens e a situação. Mas não! Eram só dentes e garras o tempo todo. Que
nem aqueles filmes sádicos sem história nenhuma.
O
que Dulce não sabia era que na vida real, quando algo realmente ruim, a plateia não tem tempo para suprimir sua
descrença. Você simplesmente corre ou dança, baby. Quando se encolheu debaixo
do balcão de uma loja de cosméticos ela já estava toda rasgada e arranhada. Mas
o cabelo totalmente continuava impecavelmente penteando, como numa daquelas
produções trash, sem o menor senso de
continuidade. O que todos aqueles fãs cretinos diriam se soubessem que era uma
peruca? Dulce não sabia. Mas apostava que eles iam gostar pra caramba do contraste que o sangue criava no terninho totalmente
branco.
***
***
Há exatos seis meses, Samantha Knight havia
terminado seu casamento sólido de quinze anos porque o marido insinuara, meio
que por brincadeira, que ela era uma escritora de um sucesso só.
Seu nome verdadeiro era Dóris da Silva, mas
ela adotou a alcunha de Samantha Knight para dar um ar mais internacional à sua
obra. No começo, ela passou a assinar Samantha King, mas descobriu que já havia
um esquisitão americano com este sobrenome então resolveu mudar para Queen, que
era o nome de uma banda que ela ouvia um bocado quando queria curtir um barato
com o namorado. Infelizmente, durante uma visita a uma livraria, descobriu que
este sobrenome também já era usado por dois primos escritores de mistério. No
fim, Dóris teve que se contentar com uma peça de xadrez de patente menor.
Ela namorava Richard, um renomado produtor de
TV, quando ele percebeu que estava numa grande encrenca: o programa humorístico
que ele havia criado para as noites de terça-feira ia ser cancelado e ele não
tinha absolutamente nada para pôr no lugar. E o pior era que ele e os sócios
não tinham a menor ideia que que tipo de atração iriam criar, já que haviam
gastado suas melhores ideias na sitcom abrasileirada.
- Pois é, mesmo os macacos velhos de vez em
quando apostam no cavalo errado – um dos personagens de “Vizinhança dos mortos
costumava dizer” e Richard tonto como era, não tinha percebido que aquilo era
uma alfinetada que a namorada havia colocado especialmente para ele. Aliás, ele
nunca percebia nenhuma delas, o que
fez com que Samantha fosse desgostando cada vez mais dele.
Um dia, depois de um jantar com os amigos,
regado a muita mescalina, ele sugeriu, meio que por brincadeira: “Porque não
fazemos um seriado baseado no livro da Samantha?”.
Todos acharam uma ótima ideia.
Ela ficou ofendida, porque em sua opinião,
literatura séria e programas baratos de televisão não tinham nada em comum. Mas
não disse nada, porque achou que eles jamais se lembrariam de nada daquilo no
dia seguinte.
Mas eles lembraram.
Os três homens estavam deitados nas
espreguiçadeiras de madeira trançada a beira da piscina tomando mais cerveja e
contando mentiras sobre suas vidas sexuais fulgurantes quando um assistente de
produção recém-contratado que ainda nem sabia fazer a barba perguntou de forma
casual:
- E ai? Vai mesmo fazer o seriado?
- É claro que vou - Richard respondeu. O
resto é história.
Uma história cheia de maquiagens de segunda
que derretiam rápido embaixo dos refletores e de críticas sobre a falta de
desenvolvimento dos os personagens.
Durante anos ela tentou publicas novas
histórias com temáticas diferentes – escreveu até um romance de época – mas
tudo o que conseguiu foram súplicas dos editores para que parasse de inventar
moda e escrevesse novas continuações de “Vizinhança dos mortos”.
Depois que do fracasso de público e crítica
de “Universo dos mortos” no ano passado ela havia jogado a toalha e começava a achar a dosagem dos
antidepressivos cada vez mais ineficaz.
Durante a carnificina, tudo que ela queria
era um copo de vodca em que pudesse jogar dez ou doze Zolofts. Aquilo sim a faria feliz. Se não a fizesse, faria com que
esquecesse a coitada da loirinha. A pobre que havia se jogado na sua frente
para impedir o zumbi de machuca-la. Porque ela era importante demais, para ser
envolvida numa brincadeira imbecil daquela.
***
***
Chris Cardoso nunca tinha encarado
“Vizinhança dos mortos” como um mero seriado. Para ele, era tipo uma profecia ou coisa assim. Eles tinham
mostrado as chamadas por vídeo em plenos anos 1970 e hoje em dia qualquer
moleque com um telefone podia fazer aquilo. Também haviam falado sobre o fim da
guerra fria e também tinham acertado. Então também era provável que acertassem
sobre todo o resto.
Ele achava que aquela mulher, Knight era uma
maria-ruela qualquer sem qualquer noção, mas mesmo assim ele a respeitava,
porque sabia que todos aqueles caras
fodões da bíblia tinham sido zé-manés nos tempos deles.
Chris foi o primeiro a perceber o que
realmente estava acontecendo. Foi sua a primeira arma a disparar um tiro na
testa de um daqueles malditos. Foi com um urro de satisfação que ele verificou
que a coisa usava um jaleco branco. No fundo Chris sempre soubera que um dia
aqueles malditos cientistas fuçadores iam foder
com tudo. Quando leu na internet há duas semanas sobre uma nova droga que
regenerava células do cérebro mortas ele soube que ia ter que começara a sair
de casa com armas melhores.
No fundo, ele sempre acreditou que a
humanidade estava destinada a fazer algo realmente
idiota e se preparou desde criança.
De vez em quando ele sonha com o pai. Ele era
pastor de uma pequena igreja no subúrbio e ficou muito magoado quando o filho
decidiu seguir carreira na polícia. Nestes sonhos, ele via o pai como um zumbi,
correndo para devorá-lo. Mas Chris não titubeava. Não importava que fosse seu
pai, ele apertava o gatilho. Porque fora para aquilo que ele nascera e Chris
sabia disso.
Ele apenas torcia secretamente para nunca ter
um sonho daqueles com versões zumbi de Gaby e Tamara. Porque sabia que aquilo
seria demais. Pra tudo havia limite. Até mesmo para um cara como ele.
Quando viu dois zumbis devorando uma
menininha e sua mãe ele achou que havia chegado a hora. Ele finalmente ia
surtar depois de todos aqueles anos usando seu lunático interior a seu favor.
Ele finalmente ia sair e que Deus tivesse dó de quem estivesse por perto. Mas
ele não saiu. Tudo o que ele lhe disse foi: - Salva elas. – A voz estava calma,
sem nenhum vestígio de desespero ou loucura. E Chris fez. Para cada uma, uma
bala na testa. E mais uma para cada um dos bichos. Para cada um dos malditos bichos asquerosos, filhos de
uma....
Então ele vira o fanboy. E o salvara. Como
Frank, o protagonista do seriado, havia salvado Jessica uma vez. As balas
tinham acabado e não havia tempo de recarregar. Então Chris deixou que as armas
deslizassem para o chão e pegou as facas que estava uma em cada lado do cinto.
Ele se deixou deslizar pelo chão liso, como se estivesse num tipo de tobogã. E
para o azar das coisas, Chris era ambidestro.
***
***
Denis
sempre tinha ouvido falar que Dulce Salgado não interpretava quando fazia o
papel de Frida. Que quando as câmeras eram ligadas, ela simplesmente era ela mesma, dizendo as falas da
oportunista e sarcástica Frida, a quem sua falecida namorada adorava de paixão.
Ele já tinha tido a oportunidade de vê-la várias vezes nos bastidores
acreditava piamente que aquele era mais um daqueles casos em que a arte imita a
vida. Por isso não foi nenhuma surpresa a forma como ele e Samantha a
encontraram.
No
meio exato de um dos corredores largos do shopping center, havia um quiosque do
Mcdonalds, onde, em dias normais, crianças e adultos faziam fila para comprar
sorvetes e outras pequenezas. Mas naquela tarde fria de outubro, os convidados
especiais já haviam passado por lá para um lanchinho, e tudo o que restava era
um monte de pedaços de cadáver semidevorados em ensanguentados.
O
gerente do Macdonald havia sido devorado apenas da cintura para cima, e sem
nenhum pudor, Dulce havia se abaixado e
pegado a chave que abria o caixa do pequeno quiosque. O que encontrou lá dentro
fez seus olhos negros brilharem e ela começou a guardar o dinheiro no bolso
interno do blazer quando Samantha e Denis chegaram esbaforidos. Ele não pôde acreditar
na cena que via. Era irreal demais para ser verdade.
Samantha
Knight não se admirou tanto. Tudo o que disse foi:
-
É a primeira vez que vejo um urubu todo branco.
-
Eles são comuns na Argentina – Dulce sorriu e Denis percebeu que seus dentes
estavam ficando gastos. Por causa da idade. Ou do cigarro, sei lá. – Tudo bem
com você Samantha? Quem é o gato? Namorado novo?
-
Um amigo. – Knight disse.
Denis
não conseguia esquecer o jeito como ela tinha se esgueirado de fininho enquanto
os colegas de elenco eram devorados no palco principal. Saídas estratégicas
pela esquerda sempre tinham sido a sua especialidade. Ele estava pensando no
quanto detestava aquela mulher quando ouviram um barulho vindo de um corredor
próximo e se deparam com Chris abrindo fogo contra três zumbis que tentavam
pegá-lo.
-
Vão ficar só admirando ou vão fazer alguma coisa, princesas? – o homem
perguntou, pegando um pente de balas num dos bolsos de sua calça cargo fora de
moda. Denis nunca tinha visto ninguém recarregar uma arma tão rápido. Mais uma
vez Dulce tentou seu truque de desaparecimento, mas ele a agarrou pelo braço.
-
Dessa vez não moça. – Com a outra mão
ele agarrou um pedaço de madeira, provavelmente de alguma decoração cara de
alguma loja grã-fina cuja vitrine fora destroçada pelo arremesso de um corpo
zumbi contra ela e a cravou na cabeça de uma das coisas que tentava matar
Chris.
Nesse
meio tempo o ariano conseguiu liquidar com as outras duas, usando apenas uma
arma.
Samantha
se encolheu de medo em um canto. Provavelmente tinha entrado em parafuso. Denis
sempre soube que isso acontecia uma hora ou outra com quem lê e escreve demais.
-
Ei, escritora! – Chris gritou. – Vamos dar o fora daqui! – E ela pareceu
acordar, a descer do planeta sei lá o que em que estivera naqueles poucos
segundos e começou a se mover, o que fez com que Denis suspirasse aliviado. Já
tinha visto gente demais morrendo naquele dia. Além do mais, Sofia teria ficado
péssima se Samantha morresse.
***
***
Um
dia, quando o seriado ainda estava na metade da temporada, Samantha e o
namorado produtor tiveram um susto e tanto. Quando chegaram para trabalhar,
havia um carro do exército esperando por eles. Alguém queria conversar com eles
sobre a série. Ainda estávamos em pleno período de ditadura e não havia nem
sinal de “Diretas já” no horizonte, o que fez com que o sangue dela gelasse
enquanto se sentava no banco do passageiro.
Andaram cerca de uma hora por lugares da
cidade que ela nem sabia que existiam, até chegarem a uma área afastada onde
ficava o escritório do mandachuva que queria conversar com eles. Samantha
sempre ouvira histórias – rumores, sussurros ou seja lá o que – sobre como
algumas dessas “conversas” com gente do exército terminavam. Isso sem falar num
certo apreço pela dramaticidade que aquele povo tinha. Não pela dramaticidade
elegante, do tipo MOLIÈRE estava mais para novela das oito.
Ela pôde comprovar isto quando entrou na sala
totalmente às escuras em que o brigadeiro assistia a uma cópia do episódio que
iria ao ar na próxima semana.
- Isso é algum tipo de alegoria? – ele se
perguntou sem sequer se virar. Não se
apresentou ou deu bom dia. Sua farda e suas condecorações diziam tudo que eles
precisavam saber. Muito menos de levantou da cadeira.
- Não estou entendendo, senhor – O namorado disse, meio que gaguejando.
O homem se levantou e chegou bem perto do
rosto dele:
- Não se faça de engraçadinho, moço. – deu
uma pausa e olhou pra Samantha – Isso é algum tipo de alegoria? Esses zumbis
comedores de gente somos nós do exército, sua hippie duma figa? Porque os
nossos especialistas estão dizendo que são.
Ela usava uma roupa de grife e brincos
caríssimos, mas por algum motivo ele achava que eu era hippie.... Vai entender.
Deu de ombros e falou com o máximo de coragem que pôde reunir:
- São só mortos comedores de gente – disse. –
É só televisão. Puro escapismo, brigadeiro. Está achando que somos quem,
Caetano Veloso?
Ele parou por um tempo. Ficou olhando.
- Ele ao menos escrevia coisas inteligentes. Subversivas, mas
inteligentes.
Samantha pôde ver a mágoa nos olhos de
Richard. Ele sempre se achara um intelectual incompreendido. E sempre ficava
magoado quando ouvia críticas, principalmente quanto ao seu talento. Mas ele
não disse nada.
O homem então se virou para ele:
- Eu não vou detê-los, ainda. Mas se eu sequer sonhar
que estão usando esse programeco para criticar as coisas boas que fazemos por
esse pais, mando os dois para cadeia tão rápido quanto vocês conseguem dizer Tropicália. E todo mundo que trabalhar
nessa joça. – ele se virou para o homem que nos trouxera – Leve esses malditos
hippies daqui!
Richard e ela não trocaram nem uma palavra
enquanto o carro os levava de volta para o estúdio. Assim que ficaram a sós,
ele perguntou:
- Me fala verdade. Era mesmo uma alegoria?
Por favor, diz pra mim que não era...
***
***
As
primeiras vitimas dos zumbis estavam em um ônibus de excursão. O motorista
manobrava por uma rua próxima da entrada do shopping center onde ficava o
centro de convenções – um dos maiores da América Latina, senhoras e senhores –
quando alguém os avistou no acostamento.
Um
dos jovens sempre ávidos por emoção jogou os restos de um pacote de doritos em
um deles. A coisa apenas se virou e ficou olhando para ele com seus olhos
mortos, enquanto todos comentavam o
quanto aquela convenção ia ser legal.
Já fazia alguns anos que elas haviam caído na mesmice, mas ao ver todas aquelas pessoas caracterizadas de um
jeito tão realista, haviam descoberto que o dinheiro e tempo investidos em
organizar a excursão valeriam a pena
Por
pouco Maick não viera. Ele nem era tão fã assim e os amigos haviam enchido
tanto o saco que ele resolvera ir com eles, para ajudar a completar o número
mínimo de pessoas no ônibus. Mais tarde – cerca de um minuto e meio após o
ônibus parar e escancarar suas portas para que algumas pessoas descessem para
tira fotos com os zumbis e esticar um pouco as pernas – ele desejaria ter
ficado em casa, igualzinho ao fanboy, a quem jamais iria conhecer, pois estaria
morto em menos de meia hora.
Os
zumbis não estavam interessados em tirar fotos ou em dar autógrafos. Estavam
famintos e as pessoas dentro do ônibus ficaram chocadas quando a primeira
mulher foi devorada sem cerimônia, bem diante dos seus olhos. Tentaram fechar
as portas, mas não adiantou, por que as coisas eram fortes, e elas as forçaram
até abrir. Uma delas se jogou contra uma das janelas enquanto alguém gritava
para que o motorista desse a partida. Mas ele não conseguiu, porque estava
paralisados. A janela não se quebrou. Foi então que a coisa arremeteu de novo.
E de novo. Estava toda quebrada por causa dos impactos, mas eles sabiam que não
iria parar. Quando finalmente o pé caiu sobre o acelerador com força, já era
tarde, porque a porta foi aberta violentamente e dois zumbis já estavam lá dentro.
O motorista foi um dos primeiros a ser devorado, o que fez com que o ônibus se
descontrolasse e capotasse.
Maick
tentou se segurar como pôde, mas acabou batendo a cabeça, o que salvou sua
vida, por um tempo. Quando despertou meio grogue e viu uma mulher horrível
mordendo o braço de seu primo caído na janela perto dele, ele primeiro não
entendeu o que que estava acontecendo, mas quando sentiu uma mordida no seu
calcanhar direito, ele entendeu. E tentou correr, mas o ônibus estava virado,
então o máximo que ele conseguiu foi dar um chute com a perna ensanguentada na
cara da coisa que o mordera. Acima dele, viu um faixo de lux forte entrando.
Alguém conseguira escalar os bancos do ônibus e puxara a alavanca que fazia com
que as janelas se soltasse, criando uma saída de emergência.
Maick
escalou para tentar chegar lá, enquanto era mordido e arranhado. Um flerte de
sangue sujou sua camiseta branca recém-comprada. E por pouco ele quase não
conseguiu sair.
Sentiu
uma mão puxando-o. Era o dono da agencia que havia organizado uma excursão. Era um quarentão boa-gente para quem tudo
estava sempre bom. Ele ainda ajudava Maick a ficar em pé quando o garoto viu um
vulto saltando pela janela. Logo depois seu salvador caia, com uma coisa
horrenda e ensanguentada em cima dele.
Maick
não perdeu tempo. Não era nenhum atleta, mas de vez em quando gostava de andar
de skate, o que fazia com que tivesse uma noção melhor de equilíbrio em
terrenos íngremes. Enquanto a coisa terminava de devorar o homem, ele correu e
saltou de cima do ônibus, caindo sobre o pé esquerdo, que com certeza de se
quebrara ao receber o impacto.
Mas
ele não pensou naquilo. Entrou no shopping center correndo, sem pensar para
onde ia, correndo para o centro de convenções, embora ficasse logo na entrada,
parecia ficar a um milhão de quilômetro de distância de onde ele estava. Ele
esbarrou em algumas pessoas e gritou coisas incompreensíveis quando uma delas
chamou o segurança que cochilava em um canto.
Ele foi ao encalço de Maick e já estava quase alcançando quando o
adolescente escancarou as elegantes portas de madeira que davam acesso ao salão
principal.
Atrás
dele, o responsável por recolher os ingressos gritou:
-
Ei, você não pode entrar ai sem me dar o seu ingresso!
Samantha
Knight estava fazendo seu discurso quando o garoto esfarrapado entrou no salão
silencioso. O som de surpresa que as pessoas da plateia fizeram a fez lembrar-se
de um daqueles animes que que o filho caçula assistia compulsivamente, episódio
após episódio, como se o mundo fosse acabar na meia hora seguinte. Era um
grande “ooooooooooooooooooooooooooh”.
Ao
lado da tribuna, os veteranos do elenco principal estavam sentados em uma
grande mesa de honra. Um deles cutucou o outro e disse: “Não falei que eles
tinham preparado algo especial esse ano? Afinal vinte e um anos são vinte e um
anos.....
-
Eles estão aqui ! – Maick gritou. – Os zumbis estão aqui! E vão devora todo
mundo!
A
plateia bateu palmas, embevecida.
Foi
então que o primeiro pedaço do bilheteiro caiu no tapete vermelho que levava ao
palco, indo pousar logo atrás de Maick. E todos puderam ouvir o grito do
bilheteiro, o que levou a mais uma rodada de aplausos.
Maick
se virou a tempo de encarar a morte. Ela foi rápida. Mas não foi indolor.
O
resto, como se diz, é história.
***
***
Há alguns anos Chris decidiu
inexplicavelmente que precisava de uma daquelas vans grandes, que servem para
carregar toda a família. Não que ele tivesse muita, já que a há anos os pais
não falavam com eles e já fazia algum tempo que a mulher e a filha tinham ido
pro saco.
Ele colocou vidro preto em todas as janelas,
embora soubesse que era contra a lei e removeu todos os banco, com exceção da
primeira fileira, para que sua verdadeira família
pudesse viajar. E agora os sete panacas estavam olhando para ela,
embasbacados.
Ver um monte de armas é bonito quando elas
estão numa cena do Exterminador do Futuro parte trinta, mas quando você vê o
reflexo da luz sobre elas e sente o cheiro da pólvora a coisa é meio chocante –
Chris pensou, se enfiava no meio deles para pegar uma escopeta. Ele também
havia experimentado aquela sensação quando as vira assim, todas empilhadas.
Na van, Chris tinha armas de todos os modelos
e calibres imagináveis. E um bocado de munição. No fundo de uma sacola de
couro, ele também tinha uns cartuchos de sal. Vai que aquele outro seriado de que ele gostava estava
certo também....
***
***
O
fanboy tinha escolhido um lança chamas ao invés de uma arma, pois sua
experiência televisiva dizia que aquela era a arma mais eficaz contra um zumbi.
Não importava que o combustível pudesse acabar rápido e aqueles tanques fossem
incrivelmente pesados.
-
Ei, Sigourney Weaver – Chris disse, quando chegaram a uma das pilastras do
grande estacionamento coberto – fica esperto. Tem algo vindo ai.
Foi
então que eles viram o zumbi se aproximando. Mas aquele era lento.
Provavelmente porque estava com a perna machucada. Usava uma camisa do Linkin
Park toda rasgada, o que fez com que o fanboy simpatizasse um pouquinho com
ele. Mas a simpatia durou pouco, porque ele se lembrou de aquilo não era uma
pessoa. Nem mesmo um animal. Era uma coisa imbecil que só sabia comer e comer.
Um troço horrível que não acrescentava muita coisa ao mundo, igual ao pai dele.
Ele
não pensou muito quando ligou o lança-chamas e apontou para a coisa. A roupa
dela já estava chamuscava quando ele percebeu a burrada que tinha feito. Porque
a coisa falou. E elas não falavam.
-
Ei, qual é? Eu não sou um deles! Pára! – ouviram a voz sair nítida. Era só
um cosplay. Tão bem feito que dava pra
achar que era realmente um zumbi de verdade. E era tarde demais para salvá-lo
porque o fanboy tinha colocado o lança chamas na intensidade máxima. Denis até
que tentou parar as chamas fazendo com que ele rolasse ao redor do próprio
corpo, mas não deu certo.
Graças
a Deus não houve frases prontas do tipo “não foi sua culpa” e nem nada do tipo.
O fanboy começou a achar que os sobreviventes eram tipo, o clube dos filhos da
puta, mas todas essas preocupações foram varridas da sua mente quando os zumbis
de verdade chegaram. O lança chamas não adiantou de nada pois mesmo incendiados
eles continuavam vindo morder e só paravam quando já estavam queimados demais,
o que parecia demorar, tipo um século, e dava tempo para fazer muitos estragos.
Assim
que pôde, o fanboy largou aquele trambolho no chão e pediu uma pistola de mão
para Chris. Ele não sabia atirar, mas não havia melhor mestra que a
necessidade?
Ele
teve muito tempo para praticar, pois demoraram quase duas horas para sair do
estacionamento.
***
***
Mal eles sentiram a luz do sol batendo em
seus rostos, eles viram os rastros de destruição. Em algum lugar ao norte da
cidade, havia fumaça. Negra e espessa.
Carros de polícia iam e vinham, mas tudo que os ouvidos de Denis captavam eram
suas sirenes. Em algum lugar uma criança gritava. Em outro, era um homem. Um
carro havia batido na esquina de cima e – cara! – eles tinham conseguido fazer
efeitos especiais maravilhosos.
Foi então que Denis percebeu que não estavam
nos anos 1970 na porta de um condomínio semidemolido e sim nos dias de hoje. E
que o cheiro de carne queimada que vinha do carro não era efeito especial
nenhum. Não estavam no último episódio do seriado, quando eles finalmente
conseguem alcançar a liberdade, apenas para descobrir que o caos é
generalizado. Embora fosse igualzinho. Quase idêntico, eu diria.
Ele já tinha visto o episódio uma centena de
vezes com Sofia. Em português, em espanhol, em baixa e alta resolução. Numa
pequena janelinha no computador. No grande telão do centro de convenções. Com
os comentários dos idealizadores. Parecia que ele estava ouvindo a voz de
Samantha Knight.
- É global – ele realmente estava ouvindo a
voz meio anasalada dela. A costela quebrada fazia com que soasse ainda mais
estranha. Embora ela estivesse do lado dele, a voz parecia vir de outro planeta.
- E vocês esperavam o quê? – Chris falou.
Quando aquilo tudo, quando o quadro geral se formou na sua mente, o
fanboy disse:
- Cara, isso é genérico demais. – ele quase chorava como tinha feito na estreia do
episódio I de Star Wars. Denis não entendia
o que ele quis dizer, mas captava a frustração na sua voz.
- E não é isso que a vida real é? – Knight
soltou quase sem perceber. Parecia que estava no meio de um seminário de
Literatura e não a beira do penhasco – Um monte de eventos aleatórios e
totalmente genéricos? Se fossem fazer o filme da vida de uma pessoa como ela
realmente é, seria o pior filme do mundo...
- Não é de admirar que as pessoas não queiram
comprar seus livros. – Dulce disse sarcasticamente. De todos ali era a que mais
esperava um final mais do tipo “E todos viveram felizes para sempre” e a que
mais se decepcionou, embora não deixasse transparecer.
Mas Denis não prestava atenção naquilo. Tudo
o que conseguia pensar era na expressão do personagem XXX na última cena,
quando ele contemplava aquele quadro horroroso. Tudo o que Denis conseguia ver
na sua mente eram seus olhos azuis. Seus vazios olhos azuis. Fitando o nada.
Era nessa hora que o telespectador entendia que a esperança saíra para comprar
cigarros e nunca mais voltaria. Junto com a audiência, sei lá.
Os olhos de Denis eram de outra cor, mas o
vazio que víamos neles era igual.
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