TRADUTOR
UNIVERSAL
Fred abriu a caixa com tanta
sofreguidão que parecia uma criança abrindo um brinquedo que ganhou de natal.
Já fazia algum tempo que ele não era
mais aquela criança e nem muito mesmo ganhava nada dos pais, mas seus dedos
ainda estavam grudentos por causa da fita adesiva... Aquilo trouxe uma sensação
reconfortante que só foi amplificada quando ele começou a girar a caixa nas
mãos. Ela era bem pequena e era toda prateada. Não tinha nada escrito, apenas
trazia gravado o desenho de uma pequena pera.
Fred ainda se lembrava dos comerciais
da Pear Inc. Eles eram sempre modernos e limpos como tudo o que eles faziam.
Fred sempre apreciara toda aquela branquidão precisa. A melhor parte deles eram
o final. Moral da história, crianças: A tecnologia só tem sentido se servir para
ajudar as pessoas. Fred não podia falar pelos outros clientes da Pear, mas com
certeza ela iria ajuda-lo com seu problema.
Bastava apenas um toque no botão que
ficava no alto para que a tela se acendesse. “A luz do conhecimento” – Fred
pensou. Mal haviam se passado alguns segundos e ele já se sentia o próprio
Prometeu – sem as correntes e a águia, é claro.
Fred pegou uma revista feita para
promover a fábrica e a folheou até encontrar o que queria. Um anúncio
totalmente escrito em inglês. Ele apontou a pequena câmera que ficava na
traseira do aparelho para ele. Em
seguida deu um toque no botão “Traduzir”.
A tela mostrou uma pequena faixa
deslizante seguida da palavra “processando”. Alguns segundos depois, o texto
estava lá, claro como cristal e escrito na sua própria língua.
“Muito bem” – Fred pensou. Mas não
havia mérito nenhum em traduzir meia dúzia das palavras mais batidas da língua.
O desafio que ele tinha pela frente era muito, muito maior. Seu brinquedo novo
ainda precisava mostrar a que viera.
Perto do trabalho havia um museu – e
uma oportunidade de ver se os engenheiros
que haviam criado aquela coisinha mereciam realmente seus gordos
salários. Fred deu uma fugidinha até lá e ficou arrepiado ao perceber que não
havia dialeto ou linguagem, por mais antiga que fosse que resistisse ao
simpático aparelhinho..
É... ele se saia muito bem com texto e
estava certo que aqueles hiroglifos egípcios não eram bolinho, mas o site da
Pear dizia que aquele era um aparelho para ser usado em todas as ocasiões e lugares.
A chance de fazer o teste definitivo
veio na hora do almoço. O rapaz estava no refeitório quando os ouviu conversar.
O garfo ficou congelado no ar e um pedaço de bife se desprendeu lentamente
dele, enquanto em algum lugar de sua mente, Fred ouvia alguém comentar sobre a
futura visita dos sócios estrangeiros. Fred não entendia lhufas de idiomas, mas
podia jurar que o que eles falavam era alemão.
Sacou o tradutor universal do bolso e
o apontou para eles.
Desta vez o processamento demorou
mais, mas não decepcionou. As bocas continuavam se movimentando enquanto as
pequenas letras amarelas começavam a aparecer na parte de baixo da tela. Fred
ficou tanto assistindo deliciado à conversa dos gringos que estourou o horário
de almoço. Coitados. Eles ficavam lá fazendo piadinhas entre eles, achando que
ninguém naquela terra de ninguém era capaz de entendê-los. Será que a Alemanha
estava fora do mapa da Pear?
Fred custou a esperar que a tarde
terminasse para poder ir para casa. Aquelas quatro horas se arrastaram muito
mais que quatro milênios.
Mal ele chegou em casa o som começou
como sempre acontecia.
Era algo estranho e tão alienígena que
não podia ser emitido por uma boca humana. Mas era. A estática se alternava com
guinchos, tão altos que faziam a cabeça de Fred doer. E pensar que quem fazia
aquele barulho era sua esposa...
Apenas alguns meses depois de eles
terem se casado, a voz maravilhosa dela foi sendo substituída aos poucos por
aquilo. No começo, Fred achou que estava tendo problemas de audição, mas cinco
visitas a médicos diferentes convenceram-no que não.
Quando a mulher entrou no quarto, o
guincho-estática aumentou tanto que Fred pensou que ia ficar surdo. O momento
para o qual ele havia se preparado o dia todo havia chegado. Ou vai ou racha.
Não pensou muito. Sacou o tradutor e
apontou para a esposa.
Passou-se muito tempo até a barrinha
parasse de deslizar pela tela. E nesse meio tempo o som apenas piorava. A
expressão de Fred mudou várias vezes no decorrer do processo. Naquele rosto
jovem já meio marcado, a esperança deu lugar à apreensão. E no fim, as duas
foram substituídas pela total descrença.
Fred saiu de casa furioso. Tinha
apenas vinte e sete anos e já ia para o bar todos os dias. Não sabia o que a
mãe diria se ainda estivesse viva e percebesse que ele havia se tornado uma
versão piorada do pai mas com certeza não ia ser coisa boa. Gentileza nunca
tinha sido com ela, que Deus a tenha!
E o gadget que havia custado tantos de
seus suados reais foi parar numa lixeira que Fred encontrou pelo caminho.
Os minutos passaram e muitas garrafas
foram enxugadas. Fred já se preparava para ir para casa disposto a acabar de
vez com aquela situação quando o tradutor universal encontrou um novo dono –
pelo menos até o fim de nossa história.
O mendigo revirava a lata de lixo
quando em busca de algo com que forrar o estômago quando deu de cara com aquela
peça de metal e plástico que parecia ser quase lisa. Ele a observou por um
tempo e o levou ao ouvido pensando que fosse um celular. Até disse “Alô”.
Quando tocou seu ouvido a pequena tela se acendeu – o que não foi surpresa
nenhuma, já que a Pear dizia que seu produto poderia ficar ligado por duas
semanas ininterruptas.
A tela iluminava a rua escura e o
homem não pôde deixar de olhar para ela.
Ele parecia hipnotizado com o que
estava vendo. Congelada no LCD estava a última imagem que o aparelho havia
captado antes de Fred coloca-lo em stand by sem perceber. Lá estava a esposa do
rapaz, com uma expressão estranha, como se estivesse preparada para atacar quem
estivesse do outro lado da tela. Sobre ela, estava escrito, em grandes letras
vermelhas:
IMPOSSÍVEL TRADUZIR
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